Tratamento da Hemofilia

Considerações iniciais

O tratamento da hemofilia A e B mudou bastante, principalmente com a consolidação da profilaxia e das terapias de meia-vida estendida. A lógica é:

hemofilia A → deficiência de fator VIII (FVIII);

hemofilia B → deficiência de fator IX (FIX).

Segundo as diretrizes da World Federation of Hemophilia (WFH), a profilaxia é a estratégia central para prevenir hemartroses, sangramentos espontâneos e dano articular.

1. Tratamento de reposição

 

Os concentrados podem ser de meia-vida padrão (SHL) ou meia-vida estendida (EHL). A WFH recomenda EHL como opção de profilaxia para hemofilia A ou B grave, desde que a dose e o intervalo sejam suficientes para evitar sangramentos.

 

Principais Marcas e Nomes Comerciais

  • Para Fator VIII (Hemofilia A):
    • Eloctate / Elocta (efmoroctocog alfa – fusão com proteína Fc)
    • Adynovi / Kovaltry (pegilados ou modificados)
    • Esperoct (turoctocog alfa pegol) [1]
  • Para Fator IX (Hemofilia B):
    • Alprolix (eftrenonacog alfa – fusão com Fc)
    • Idelvion (albutrepenonacog alfa – fusão com albumina)
    • Rebinyn (nonacog beta pegol) [1, 2, 3, 4]

2. Profilaxia

A grande mudança no tratamento é que, especialmente na hemofilia grave, não se deve esperar o sangramento acontecer para administrar o fator.

Hemofilia A

FVIII:

  • Concentrado de FVIII SHL: geralmente 20–40 UI/kg, aproximadamente 2–3 vezes/semana, individualizando pelo farmacocinética e níveis de FVIII.
  • FVIII EHL: intervalos maiores, frequentemente a cada 3–5 dias, dependendo do produto e do paciente.
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Hemofilia B

Fator IX de coagulação (FIX):

  • FIX SHL: geralmente 40–60 UI/kg, aproximadamente 1–2 vezes/semana.
  • FIX EHL: pode permitir administração a cada 7–14 dias, dependendo do produto, farmacocinética e objetivo de nível mínimo.

Esses esquemas são referências gerais, não substituem o esquema individualizado pelo centro de hemofilia. A WFH recomenda ajustar a profilaxia para manter níveis adequados e prevenir hemartroses e sangramentos espontâneos.

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3. Emicizumabe — grande diferencial da hemofilia A

O emicizumabe é um anticorpo biespecífico que faz uma "ponte" entre FIXa e FX, mimetizando funcionalmente o FVIII ativado. Ele é utilizado na profilaxia da hemofilia A, inclusive em pacientes com inibidor contra FVIII. Não funciona na hemofilia B porque não substitui a função do FIX.

Esquema

Dose de ataque:

3 mg/kg SC 1×/semana por 4 semanas

Depois:

  • 1,5 mg/kg SC 1×/semana, ou
  • 3 mg/kg SC a cada 2 semanas, ou
  • 6 mg/kg SC a cada 4 semanas.

É uma vantagem importante porque é subcutâneo, ao contrário da reposição de FVIII, que normalmente exige acesso venoso.

Importante: emicizumabe é profilático. Ele não deve ser utilizado para tratar isoladamente um sangramento agudo. Para sangramento breakthrough, utiliza-se FVIII ou agente de bypass conforme a situação.

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4. Tratamento da hemorragia aguda

Hemofilia A sem inibidor

FVIII concentrado

A dose depende do local e gravidade do sangramento.

Uma aproximação útil:  1 UI/kg de FVIII aumenta o FVIII plasmático em aproximadamente 2% (2 UI/dL).

Portanto:

Dose FVIII ≈ peso × aumento desejado (%) × 0,5

Exemplo:

Paciente 70 kg, deseja aumentar FVIII de 1% para 100%:

70 × 99 × 0,5 ≈ 3.465 UI

Na prática, arredonda-se para a dose disponível e posteriormente monitora-se o FVIII.

Hemofilia B sem inibidor

Concentrado de FIX

A recuperação depende do produto utilizado e é diferente entre adultos e crianças, além de variar entre produtos SHL e EHL.

Por isso, não é adequado simplesmente aplicar a mesma fórmula do FVIII.

5. Sangramento grave

Em sangramentos potencialmente fatais, a reposição deve ser imediata, sem aguardar todos os exames.

Exemplos:

  • hemorragia intracraniana;
  • trauma craniano;
  • sangramento gastrointestinal importante;
  • hemorragia retroperitoneal;
  • hemorragia muscular extensa;
  • sangramento cervical/faríngeo;
  • trauma importante;
  • cirurgia de grande porte.

O objetivo é obter rapidamente níveis elevados de fator e manter cobertura adequada durante o período de risco.

 

6. E se houver inibidor?

Essa é uma situação particularmente importante.

Hemofilia A + inibidor

Se o inibidor for de baixa resposta, pode-se utilizar FVIII.

Se for de alta resposta, utilizam-se agentes bypass, principalmente:

  • rFVIIa — fator VIIa recombinante
  • aPCC — complexo protrombínico ativado

Entretanto, em pacientes que utilizam emicizumabe, a WFH prefere rFVIIa em vez de aPCC, porque a combinação emicizumabe + aPCC aumenta o risco de microangiopatia trombótica e trombose.

7. Desmopressina — onde entra?

A DDAVP (desmopressina) pode ser utilizada em alguns pacientes com hemofilia A leve, porque aumenta a liberação endógena de FVIII e fator de von Willebrand.

Não funciona na hemofilia B.

É particularmente útil quando há boa resposta documentada ao teste de DDAVP.

Não é adequada para hemofilia A grave.

8. Ácido tranexâmico

O ácido tranexâmico é um excelente adjuvante, principalmente em sangramentos de mucosas:

  • odontologia;
  • sangramento oral;
  • epistaxe;
  • menorragia;
  • procedimentos de mucosa.

Ele não substitui o fator quando há necessidade de reposição.

 

9. Terapia gênica

É uma área que já entrou na prática para alguns pacientes selecionados.

Existem terapias gênicas baseadas em AAV destinadas a hemofilia A e B, capazes de induzir produção endógena de FVIII ou FIX.

Entretanto, não são simplesmente "cura para todos": a seleção depende de fatores como:

  • gravidade;
  • idade;
  • função hepática;
  • presença de anticorpos contra o vetor;
  • histórico de tratamento;
  • presença de inibidores;
  • expectativa de resposta;
  • disponibilidade e experiência do centro.

A própria WFH atualmente possui um capítulo específico dedicado à terapia gênica com AAV, destacando a necessidade de seleção cuidadosa e decisão compartilhada.

Fontes

  • SRIVASTAVA, Alok et al. WFH guidelines for the management of hemophilia. 3. ed. Montreal: World Federation of Hemophilia, 2020. DOI: 10.1111/hae.14046.
  • WORLD FEDERATION OF HEMOPHILIA. Guidelines for the management of hemophilia: 3rd edition. Montreal: World Federation of Hemophilia, 2020. Disponível em: WFH – Guidelines for the Management of Hemophilia. Acesso em: 17 ago. 2026.
  • BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo de uso de fatores de coagulação para a profilaxia primária em caso de hemofilia grave. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2024. Disponível em: Ministério da Saúde – Protocolos de Uso. Acesso em: 17 ago. 2026.
  • BRASIL. Ministério da Saúde. Protocolo de uso de emicizumabe por pacientes com hemofilia A e inibidores do fator VIII refratários ao tratamento de imunotolerância. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2024. Disponível em: Ministério da Saúde – Protocolos de Uso. Acesso em: 17 ago. 2026.
  • SRIVASTAVA, Alok et al. WFH guidelines for the management of hemophilia: 3rd edition. Haemophilia, v. 26, supl. 6, p. 1-158, 2020. DOI: 10.1111/hae.14046.
  • WORLD FEDERATION OF HEMOPHILIA. Guidelines for the management of hemophilia: treatment guideline resource hub. Montreal: WFH, 2026. Disponível em: WFH Treatment Guidelines Resource Hub. Acesso em: 17 ago. 2026.