TERAPIA HORMONAL DA MENOPAUSA E PERIMENOPAUSA
Considerações iniciais
A terapia hormonal da menopausa (THM) é feita principalmente com estrogênio, isolado ou associado a um progestagênio/progesterona. A escolha depende sobretudo de a mulher ter ou não útero, dos sintomas, idade, tempo desde a menopausa e riscos cardiovasculares, trombóticos e mamários.
O esquema clássico é:
ESTROGÊNIO + PROGESTERONA/PROGESTAGÊNIO
O estrogênio trata principalmente:
A progesterona é adicionada para proteger o endométrio, porque o estrogênio sistêmico isolado pode provocar hiperplasia endometrial e aumentar o risco de câncer de endométrio.
Um esquema bastante utilizado é, por exemplo:
Estradiol transdérmico + progesterona micronizada
O consenso brasileiro de 2024 apresenta como opções de estradiol transdérmico adesivos de 25–50 µg/dia e progesterona micronizada 100–200 mg/dia, com o regime sendo individualizado.
A progesterona pode ser:
Se houve histerectomia e não há endométrio, geralmente pode-se fazer:
ESTROGÊNIO ISOLADO
Não há necessidade habitual de progesterona para proteção endometrial.
E existe reposição APENAS com progesterona?
Sim, existe. A progesterona micronizada isolada pode ser utilizada e há evidências de que, em determinadas situações, ela pode melhorar fogachos e principalmente sono. Um estudo citado pela NAMS encontrou redução dos sintomas vasomotores com progesterona micronizada 300 mg à noite.
Porém, há uma diferença importante:
Progesterona isolada ≠ terapia hormonal padrão da menopausa.
Ela não substitui o estrogênio para objetivos como tratamento do hipoestrogenismo, prevenção de perda óssea ou tratamento da atrofia vaginal. O uso isolado para sintomas vasomotores também é considerado uma utilização fora da indicação formal em algumas diretrizes. Portanto, uma mulher com fogachos importantes, por exemplo, geralmente terá maior benefício com estradiol, desde que possa utilizá-lo.
A progesterona micronizada 100–200 mg à noite pode ser particularmente interessante quando há necessidade de proteção endometrial, porque além dessa função ela pode ter efeito favorável sobre o sono em algumas mulheres. O consenso brasileiro considera a progesterona micronizada uma das opções de progestagênio na THM.
1. Mulher com útero — esquema mais utilizado
Opção A — Estradiol transdérmico + progesterona micronizada
Estradiol adesivo - iniciar com 25–50 µg/dia, trocado conforme apresentação do adesivo (geralmente 1–2×/semana).
+ Progesterona micronizada 100 mg VO à noite, continuamente, todos os dias.
Exemplo:
Estradiol transdérmico 50 µg/dia + progesterona micronizada 100 mg VO à noite, diariamente.
Essa combinação é bastante utilizada porque o estradiol transdérmico evita o primeiro-passagem hepático; em mulheres com risco cardiovascular intermediário, diretrizes favorecem estradiol transdérmico associado à progesterona micronizada.
Esquema cíclico
É particularmente útil para mulheres na perimenopausa ou ainda apresentando menstruações.
Estradiol contínuo + progesterona cíclica
Estradiol
Progesterona micronizada
Por exemplo:
Dias 1–28: estradiol
Dias 15–28: progesterona 200 mg à noite.
Pode ocorrer sangramento após a retirada da progesterona.
Esse regime fornece proteção endometrial enquanto permite que o estradiol seja mantido continuamente. Regimes sequenciais com progesterona por 10–14 dias/mês são descritos nas recomendações de THM.
Pós-menopausa estabelecida
Se a mulher já está há anos sem menstruar, uma opção bastante prática é:
Regime combinado contínuo
Estradiol transdérmico 25–50 µg/dia
Progesterona micronizada 100 mg VO à noite continuamente.
Objetivo:
A dose deve ser a menor dose eficaz para controlar os sintomas.
Estradiol por via oral
Outra possibilidade:
17β-estradiol 0,5–1 mg VO 1×/dia
Progesterona micronizada 100 mg/dia continuamente
ou
200 mg/dia por 12–14 dias/mês.
As doses iniciais baixas de estradiol oral são uma estratégia reconhecida para início da terapia.
Na prática, quando não há contraindicação, eu tenderia a preferir estradiol transdérmico em mulheres com maior risco trombótico/metabólico, pois a via transdérmica tem algumas vantagens nesse contexto.
Estradiol em gel
Também é bastante utilizado. A dose depende da concentração e do dispositivo do produto, portanto é melhor prescrever em mg de estradiol, conferindo a apresentação comercial, e não simplesmente pelo número de "pumps". Um pump na terapia de reposição hormonal (TRH) é a dose exata de gel hormonal (como estradiol ou testosterona) liberada por um único acionamento completo da válvula do frasco dosador
Um esquema inicial habitual é aproximadamente:
Estradiol transdérmico 0,5–1 mg/dia
Progesterona micronizada 100 mg à noite continuamente.
Se os sintomas continuarem importantes, a dose de estradiol pode ser ajustada progressivamente.
2. Mulher SEM útero
Aqui fica muito mais simples. Histerectomia + sintomas vasomotores
Estradiol isolado
Por exemplo:
Estradiol transdérmico 25–50 µg/dia.
Não é necessário acrescentar progesterona apenas para proteção endometrial, porque não existe endométrio.
Há algumas exceções clínicas, como determinadas situações envolvendo endometriose, que precisam ser individualizadas.
E se o problema for somente secura vaginal?
Nesse caso não é necessário fazer THM sistêmica.
Pode-se utilizar estrogênio vaginal em baixa dose, por exemplo:
A absorção sistêmica é muito menor e, para sintomas geniturinários isolados, a terapia vaginal de baixa dose é uma opção recomendada.
E progesterona isolada?
Aqui está uma situação interessante. Pode-se utilizar:
Progesterona micronizada 300 mg VO à noite
em algumas mulheres com sintomas vasomotores, especialmente quando o estrogênio não é desejado ou não pode ser utilizado. Entretanto, não é o esquema padrão de reposição hormonal da menopausa.
Ela pode ajudar particularmente em:
Mas não substitui adequadamente o estradiol para:
Portanto, se a mulher tem fogachos importantes e não há contraindicação ao estrogênio, geralmente faz mais sentido tratar a deficiência estrogênica.
Exemplos na prática
- Mulher 52 anos, útero presente, fogachos importantes
1ª opção:
Reavaliar em aproximadamente 8–12 semanas e ajustar o estradiol conforme resposta e efeitos adversos.
sem progesterona.
Consideraria inicialmente:
Estrogênio vaginal de baixa dose
em vez de THM sistêmica.
É importante excluir contraindicações relevantes, particularmente:
E não é necessário dosar estradiol ou FSH rotineiramente para "regular a dose" em uma mulher com quadro clínico típico de menopausa; a dose é principalmente ajustada pela resposta clínica e efeitos adversos.
A THM deve ser individualizada quanto à formulação, dose, via e duração, com reavaliações periódicas.
Fontes