Suspensão de anticoagulantes antes de procedimentos cirúrgicos
Considerações iniciais
O primeiro passo é avaliar o risco tromboembólico do paciente e o risco intrínseco de sangramento relacionado ao procedimento. Ambos são classificado em baixo, moderado e alto.
Procedimentos com alto risco de sangramento
Como exemplos de alguns procedimentos de alto risco de sangramento (sangramento maior ≥ 2% em 30 dias) temos as ressecções de tumores sólidos, cirurgias ortopédicas e torácicas maiores, a maioria das cirurgias gastrointestinais e urológicas, de órgãos altamente vascularizados e cirurgias maiores com duração maior que 45 minutos.
Procedimentos com risco intermediário de sangramento
Procedimentos de risco intermediário (0-2%) são artroscopia, biópsia de pele e linfonodos, cirurgias de pé e mão, cateterismo via femoral, endoscopia, colonoscopia e broncoscopia com biópsia, colecistectomia laparoscópica e cirurgias de hérnia abdominal e hemorroidas.
Procedimentos com risco baixo de sangramento
Já procedimentos de risco baixo (próximo a 0%) são procedimentos dermatológicos menores, oftalmológicos, dentários, implante de dispositivos cardíacos, como marca-passo e CDI e cateterismo via radial.
Quanto ao risco tromboembólico
Em relação ao risco tromboembólico, os pacientes são classificados como alto risco (> 10%/ano de tromboembolismo arterial (TEA) e > 10%/mês de risco de tromboembolismo venoso (TEV)) quando têm valva mitral mecânica associada a fatores de risco para acidente vascular cerebral (AVC), valvas mitral ou aórtica em “gaiola”, AVC/AIT há menos de 3 meses, fibrilação atrial (FA) com CHA2DS2-VASc ≥ 7 ou com doença valvar reumática, TEV há menos de 3 meses, trombofilias graves, síndrome antifosfolípide e câncer ativo com alto risco de TEV.
Risco intermediário (4-10%/ano para TEA ou 4-10%/mês para TEV) compreende pacientes com prótese valvar aórtica associada a fatores de risco para AVC, CHA2DS2-VASc 5 ou 6, TEV entre 3-12 meses, TEV recorrente, trombofilias não graves, câncer ativo ou história de câncer.
Já o risco baixo (< 4%/ano para TEA e < 2%/mês para TEV) compreende pacientes com prótese valvar aórtica sem fatores de risco para AVC, CHA2DS2-VASc entre 1 e 4 e TEV há mais de 1 ano.
O objetivo de estratificar o risco dos pacientes é realizar medidas para reduzi-los. Além disso, é importante conhecer as propriedades das medicações utilizadas para a melhor tomada de decisão em relação ao melhor momento de suspendê-las e reiniciá-las.
Segue um protocolo prático e completo de anticoagulação, é um guia de uso clínico — sempre ajuste ao risco individual e ao tipo de procedimento.
1) Avaliação inicial (antes de tudo)
🔎 Avaliar 2 eixos:
🔴 Risco trombótico (se suspender anticoagulação)
Alto risco
TEV recente (< 3 meses)
Trombofilia de alto risco (ex: SAF)
FA com CHA₂DS₂-VASc alto (≥6 ou AVC recente)
Prótese valvar mecânica (especialmente mitral)
Baixo/moderado
TEV antigo (> 3–6 meses)
FA sem eventos recentes
Profilaxia isolada
Alto risco de complicação vascular
2) Manejo por tipo de anticoagulante
A) Clexane (HBPM)
Suspensão pré-procedimento:
Profilático → 12–24h antes
Terapêutico → 24h antes
IR (ClCr <30) → 36–48h
B) DOACs (ex: Rivaroxabana, Apixabana)
Suspensão:
Baixo risco de sangramento→ 24h antes
Alto risco de sangramento→ 48h antes
Insuficiência Renal → até 72h
C) Varfarina
Suspensão:
Parar 5 dias antes
Checar INR (<1,5 ideal para procedimento).
⏱️ Retomada
Baixo risco de sangramento:
12–24h → profilático
24h → terapêutico
Alto risco:
48–72h (avaliar hemostasia)
Bridging - ponte de anticoagulação (transição entre anticoagulantes)
O bridging (ou ponte de anticoagulação) é uma estratégia terapêutica utilizada para gerenciar pacientes que tomam anticoagulantes orais crônicos (geralmente varfarina) e precisam suspendê-los temporariamente para realizar cirurgias ou procedimentos invasivos. O objetivo principal é evitar um estado de hipercoagulabilidade (risco de trombose) enquanto o paciente não está protegido pelo medicamento de uso contínuo, equilibrando esse risco com a possibilidade de sangramento cirúrgico.
Bridging é exceção, não regra
Usar principalmente em:
varfarina + alto risco trombótico
DOACs → simples (sem ponte)
Heparina EV domina o intra-procedimento
Como funciona o Bridging?
1. Suspensão do Anticoagulante Oral (AVK): A varfarina é suspensa alguns dias antes da cirurgia, pois demora a sair do sistema.
2. Introdução de Anticoagulante de Ação Rápida: Quando o nível de anticoagulação (INR) cai, introduz-se um anticoagulante parenteral de curta duração (heparina não fracionada - HNF, ou heparina de baixo peso molecular - HBPM, como a enoxaparina).
3. Suspensão antes da Cirurgia: As heparinas são suspensas poucas horas antes do procedimento para minimizar riscos de sangramento.
4. Reintrodução: A heparina é reiniciada após a cirurgia até que a varfarina volte a fazer efeito terapêutico.
Quando é indicado?
A ponte é indicada para pacientes com alto risco tromboembólico, como:
Quando NÃO é indicado?
Estudos recentes, como o BRIDGE (2015), mostraram que pacientes com risco trombico moderado (como FA não valvar) muitas vezes não se beneficiam da ponte e, na verdade, têm maior risco de sangramento. Nessas situações, a conduta preferencial tem sido suspender a varfarina sem realizar o bridging com heparina.
🔄 Para voltar ao uso de varfarina - se fez bridging:
Reiniciar HBPM + varfarina
Manter até INR terapêutico
Fontes
https://portal.afya.com.br/cardiologia/como-manejar-anticoagulantes-e-antiagregantes-no-perioperatorio
https://www.scielo.br/j/jbpneu/a/p3byFJhnt4PspgWRXGXcMvq/?lang=pt
https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC5156547/
https://artmed.com.br/artigos/cirurgia-e-anticoagulacao-ou-antiagregacao-o-que-fazer