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Semiologia do Ombro

Considerações iniciais

A semiologia do ombro é uma das mais importantes do exame musculoesquelético. O diagnóstico correto depende da combinação entre anamnese, inspeção, palpação, avaliação da amplitude de movimento, teste de força e manobras provocativas específicas. Nenhum teste isolado possui sensibilidade e especificidade suficientes; o ideal é interpretar os testes em conjunto.

1. ANAMNESE

Antes do exame físico, procure responder:

  • Trauma ou início insidioso?
  • Dor anterior, lateral ou posterior?
  • Dor noturna?
  • Fraqueza?
  • Sensação de instabilidade?
  • Estalos?
  • Limitação de movimento?
  • Dor irradiada para o braço?
  • Atividade esportiva ou ocupacional?

 

Localização da dor

Local

Sugere

Face lateral do ombro → Manguito rotador

Região anterior → Bíceps, subescapular

Superior → Articulação AC

Posterior → Labrum, instabilidade posterior

Difusa com rigidez → Capsulite adesiva

 

2. INSPEÇÃO

Observar:

  • Atrofia do supraespinal
  • Atrofia do infraespinal
  • Atrofia do deltóide
  • Escápula alada
  • Deformidade AC
  • Luxação
  • Equimose
  • Assimetria

 

3. PALPAÇÃO

Palpar sistematicamente:

  • Clavícula
  • Articulação acromioclavicular
  • Acrômio
  • Processo coracoide
  • Sulco bicipital
  • Tuberosidade maior
  • Espinha da escápula
  • Borda medial da escápula

Dor localizada ajuda muito no diagnóstico.

 

4. AMPLITUDE DE MOVIMENTO

Ativa

Paciente movimenta sozinho.

Avaliar:

  • Flexão (180°)
  • Extensão (45-60°)
  • Abdução (180°)
  • Adução (30°)
  • Rotação externa (90°)
  • Rotação interna (T7 normalmente)

Passiva

O examinador movimenta.

Se ativa limitada e passiva normal → Manguito rotador

Se ambas limitadas :

→ Capsulite
→ Artrose
→ Artrite

 

5. FORÇA MUSCULAR

Avaliar cada músculo do manguito.

Supraespinal

Teste de Jobe ("Empty Can")

Braço em:

  • 90° abdução
  • 30° anterior
  • Polegares para baixo

Aplicar resistência.

Dor + fraqueza

              ↓

Lesão do supraespinal

Sensibilidade: ≈80%

ChatGPT Image 30_07_2026, 16_18_35.png

Infraespinal

Rotação externa contra resistência.

Fraqueza

                  ↓

Lesão do infraespinal

Redondo menor

Hornblower

Paciente tenta rotação externa em 90° de abdução.

Incapacidade

                    ↓

Lesão do redondo menor

Subescapular

Lift-off

Mão nas costas.

Paciente afasta a mão.

Não consegue

               ↓

Lesão do subescapular

Belly Press

Paciente comprime abdome.

Cotovelo vai para trás normalmente.

Se cotovelo desloca para frente

                  ↓

Subescapular lesionado

 

6. TESTES DE IMPACTO

Neer

Elevação passiva do braço.

Dor anterior/lateral

                      ↓

Síndrome do impacto

Manguito

Bursa

neer test.png

Hawkins-Kennedy

Ombro 90°

Cotovelo 90°

Rotação interna forçada.

Dor

                ↓

Impacto subacromial

Muito sensível.

ChatGPT Image 30_07_2026, 09_36_21.png

7. TESTES DO MANGUITO ROTADOR

 

Drop Arm

Paciente eleva o braço.

Depois abaixa lentamente.

Braço cai

                      ↓

Ruptura importante do supraespinal

Alta especificidade.

drop arm.png

External Rotation Lag

Paciente mantém rotação externa.

Braço retorna sozinho

                       ↓

Lesão infraespinal

 

8. TENDÃO DA CABEÇA LONGA DO BÍCEPS

Speed

Braço em flexão.

Palma para cima.

Resistir flexão.

Dor no sulco

Tendinite bicipital

Yergason

Cotovelo 90°.

Paciente supina contra resistência.

Dor

Bíceps

Translação do tendão

Instabilidade bicipital

 

yergason.jpg

9. ARTICULAÇÃO ACROMIOCLAVICULAR

Cross-body Adduction

Paciente cruza braço.

Dor superior

Articulação AC

Muito útil.

 

10. INSTABILIDADE

Apprehension Test

Braço:

90° abdução

Rotação externa.

Paciente sente que vai luxar.

               ↓

Instabilidade anterior

Relocation Test

Após apprehension

Empurra cabeça do úmero posteriormente.

Melhora

          ↓

Confirma instabilidade

Sulcus Sign

Tração inferior.

Surge sulco abaixo do acrômio.

Instabilidade inferior

 

11. LABRUM (SLAP)

O'Brien

Braço:

90°

10° adução

Polegar para baixo.

Dor

SLAP

Se melhora com palma para cima

Mais sugestivo ainda.

Crank Test

Rotação com compressão.

Dor

Estalo

Lesão labral

 

12. CAPSULITE ADESIVA

Achados clássicos:

✔ Dor difusa

✔ Rigidez

✔ Limitação ativa

✔ Limitação passiva

Principal perda:

Rotação externa

Depois:

Abdução

Rotação interna

 

13. ARTROSE GLENOUMERAL

Dor profunda

Crepitação

Limitação progressiva

Rotação externa reduzida

 

14. SÍNDROME DO IMPACTO

Dor:

  • entre 60° e 120°

("Painful Arc")

Depois melhora acima de 120°.

Painful Arc

Dor

60–120°

Impacto subacromial

Manguito

Bursa

ChatGPT Image 29 de jul. de 2026, 00_15_26.png

Algoritmo prático do exame físico

  1. Inspeção: deformidades, atrofias, escápula alada.
  2. Palpação: clavícula, articulação AC, acrômio, processo coracoide, sulco bicipital e tuberosidade maior.
  3. Amplitude de movimento: ativa e passiva. Se ambas estiverem reduzidas, pense em capsulite adesiva ou artrose; se apenas a ativa estiver reduzida, suspeite de lesão do manguito rotador.
  4. Força do manguito rotador:
    • Supraespinal: Jobe (Empty Can)
    • Infraespinal: rotação externa contra resistência
    • Subescapular: Lift-off e Belly Press
  5. Impacto subacromial: Neer e Hawkins-Kennedy.
  6. Bíceps: Speed e Yergason.
  7. Articulação acromioclavicular: Cross-body Adduction.
  8. Instabilidade: Apprehension, Relocation e Sulcus Sign.
  9. Labrum: O'Brien e Crank.

 

Precisão dos testes

Os testes isolados apresentam desempenho diagnóstico moderado. Em geral:

  • Neer e Hawkins-Kennedy são mais sensíveis para síndrome do impacto.
  • Jobe (Empty Can) é um dos melhores para lesão do supraespinal, especialmente quando associado à avaliação de força.
  • Drop Arm possui alta especificidade para rupturas completas do supraespinal.
  • Speed e Yergason têm acurácia limitada quando usados isoladamente para tendinopatia do bíceps.
  • Apprehension associado ao Relocation Test aumenta significativamente a probabilidade de instabilidade anterior.
  • Cross-body Adduction é bastante útil para patologia da articulação acromioclavicular.
  • O'Brien deve ser interpretado em conjunto com outros achados, pois também pode ser positivo em lesões da articulação AC.

Fontes

  • AMERICAN ACADEMY OF ORTHOPAEDIC SURGEONS (AAOS). Management of Rotator Cuff Injuries: Clinical Practice Guideline. Rosemont: AAOS, 2025. 
  • LAFRANCE, S. et al. Diagnosing, managing, and supporting return to work of adults with rotator cuff disorders: a clinical practice guideline. Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy, Alexandria, v. 52, n. 10, p. 647-664, 2022. DOI: 10.2519/jospt.2022.11306.
  • DESMEULES, F. et al. Rotator cuff tendinopathy diagnosis, nonsurgical medical care, and rehabilitation: a clinical practice guideline. Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy, Alexandria, v. 55, n. 4, p. 235-274, 2025. DOI: 10.2519/jospt.2025.1318
  • HEGEDUS, E. J. et al. Physical examination tests of the shoulder: a systematic review with meta-analysis of individual tests. British Journal of Sports Medicine, London, v. 46, n. 14, p. 964-978, 2012.
  • HERMANSSON, T.; HEDLUND, R.; KARLSSON, J. Diagnostic accuracy of clinical tests for subacromial impingement syndrome: a systematic review and meta-analysis. BMJ Open Sport & Exercise Medicine, London, 2015.
  • MICHENER, L. A.; WALSWORTH, M. K.; DOUGLASS, T. Reliability and diagnostic accuracy of five physical examination tests and combination of tests for subacromial impingement. Archives of Physical Medicine and Rehabilitation, Chicago, v. 90, n. 11, p. 1898-1903, 2009.
  • PARK, H. B. et al. Diagnostic accuracy of clinical tests for the different degrees of subacromial impingement syndrome. Journal of Bone and Joint Surgery, Boston, v. 87, n. 7, p. 1446-1455, 2005.