SANGRAMENTO DIGESTIVO BAIXO EM CANCER DE COLORRETO
Em um paciente com sangramento digestivo baixo associado a câncer de reto, eu abordaria em dois eixos simultâneos: controle do sangramento agudo e tratamento da causa tumoral. O fato de haver câncer de reto não muda a prioridade inicial: primeiro estabilizar e localizar/controlar a hemorragia.
1. Primeiro: definir a gravidade
Avaliar imediatamente:
A avaliação inicial recomendada para hemorragia digestiva baixa inclui parâmetros hemodinâmicos, exame físico — incluindo toque retal — medicamentos que aumentam sangramento e exames laboratoriais.
2. Se estiver instável ou sangrando ativamente
Aqui está a principal decisão:
Paciente instável + sangramento importante/contínuo → angio-TC de abdome e pelve.
A angio-TC é recomendada para localizar o foco antes do tratamento endoscópico ou radiológico nesses pacientes.
Se a angio-TC demonstrar extravasamento:
Angio-TC positiva → radiologia intervencionista → embolização arterial seletiva.
Isso é particularmente importante no câncer de reto porque o sangramento pode ser arterial e não necessariamente ser controlado apenas com medidas locais.
Se não houver possibilidade de embolização ou houver falha do tratamento endoscópico/radiológico, entra a avaliação cirúrgica.
Transfusão
Não transfundiria simplesmente pelo fato de o paciente ter câncer.
Em paciente hemodinamicamente estável:
Em hemorragia ativa importante, evidentemente, não se deve esperar a hemoglobina cair para iniciar ressuscitação, porque a Hb inicial pode subestimar a perda sanguínea.
Se o paciente estiver estável
Nesse cenário, a estratégia muda.
Colonoscopia
A colonoscopia deve ser realizada durante a internação nos casos de hemorragia digestiva baixa importante, mas não há evidência de que fazer colonoscopia imediatamente, nas primeiras horas, melhore os desfechos em comparação com uma abordagem não emergencial. No paciente com câncer de reto conhecido, entretanto, eu daria atenção especial à retossigmoidoscopia/colonoscopia, porque precisamos responder:
Isso é importante porque nem todo sangramento em um paciente com câncer colorretal é necessariamente causado pelo tumor.
Se o sangramento vier diretamente do tumor retal
Aqui começa uma parte particularmente importante.
O tumor pode apresentar:
Possibilidades de controle endoscópico
Dependendo do aspecto:
Clips
→ úteis quando existe um vaso/foco bem definido.
Coagulação térmica
→ pode ser utilizada em pontos de sangramento identificáveis.
Métodos hemostáticos tópicos
→ podem ser particularmente úteis quando existe sangramento difuso de superfície tumoral, situação na qual clip ou coagulação convencional podem ser difíceis.
Em sangramento persistente ou recorrente, deve-se considerar embolização pela radiologia intervencionista.
E o tratamento definitivo?
Esse é o ponto fundamental:
Não basta controlar o sangramento. É necessário tratar o câncer de reto.
O manejo dependerá principalmente de:
Nos tumores de reto localmente avançados, o tratamento moderno frequentemente envolve terapia neoadjuvante, incluindo estratégias de terapia neoadjuvante total (TNT), seguida de cirurgia em pacientes selecionados.
Portanto, depois de controlar a hemorragia, o caso deve ser discutido conjuntamente por:
Coloproctologia/cirurgia + oncologia clínica + radioterapia + gastroenterologia/endoscopia.
Um cenário especial: sangramento recorrente pelo tumor
Se o paciente apresenta:
câncer de reto + sangramentos repetidos + anemia progressiva
mesmo sem choque, eu pensaria em uma estratégia mais definitiva.
Pode ser necessário:
Controle endoscópico → radioterapia hemostática/paliativa → tratamento oncológico definitivo, dependendo do estágio e da possibilidade de ressecção.
A radioterapia pode ser particularmente interessante quando o sangramento é consequência direta de um tumor retal não imediatamente ressecável ou em contexto paliativo.
Fontes