Ruptura do Bíceps Braquial: Diagnóstico e Tratamento
Considerações iniciais
A ruptura do bíceps braquial é uma lesão relativamente comum, especialmente em homens entre a quarta e sexta décadas de vida. Pode acometer a cabeça longa do bíceps (mais frequente), a cabeça curta (rara) ou o tendão distal do bíceps, este último associado a maior perda funcional quando não tratado adequadamente.
Anatomia
O músculo bíceps braquial possui duas origens:
Cabeça longa: tubérculo supraglenoidal da escápula
Cabeça curta: processo coracoide
Ambas convergem formando um único ventre muscular que se insere na:
Funções
Flexão do cotovelo
Supinação do antebraço (principal função)
Auxílio na flexão do ombro
Estabilização da articulação glenoumeral
Classificação
1. Ruptura proximal
Corresponde a cerca de 95% dos casos.
Pode ocorrer em:
Cabeça longa (quase sempre)
Cabeça curta (extremamente rara)
2. Ruptura distal
Representa aproximadamente 3–5% das rupturas, porém ocasiona maior comprometimento funcional.
Fatores de risco
Idade > 40 anos
Tendinopatia crônica
Síndrome do impacto
Lesões do manguito rotador
Tabagismo
Corticoides sistêmicos
Infiltrações repetidas com corticosteroides
Fluoroquinolonas
Esportes de força
Levantamento de peso
Trabalho braçal intenso
Quadro clínico
Ruptura proximal
Geralmente ocorre após:
levantar peso
movimento brusco
trauma
Paciente refere:
estalido ("pop")
dor súbita anterior do ombro
diminuição da dor após alguns dias
deformidade estética
Sinal de Popeye
É o achado clássico.
O ventre muscular migra distalmente formando uma protuberância no braço.
Ruptura distal
Paciente refere:
dor intensa na fossa cubital
estalo
edema
hematoma
perda importante de força
Principal perda funcional:
supinação
Depois:
flexão
Exame físico
Inspeção
Palpação
Testes clínicos
Hook Test (O'Driscoll)
Principal teste para ruptura distal.
Paciente: cotovelo em 90° faz supinação
O examinador tenta "engatar" o tendão com o dedo.
Normal
Tendão palpável.
Positivo
Não consegue palpar o tendão.
Alta sensibilidade e especificidade para ruptura completa distal.
Biceps Squeeze Test
Comprime-se o ventre muscular.
Normal:
ocorre supinação.
Na ruptura distal:
não ocorre movimento.
Teste de Ludington
Paciente coloca as mãos atrás da cabeça e contrai o bíceps.
Ausência de contração de um lado sugere ruptura proximal.
Speed
Dor anterior
Sugere tendinopatia da cabeça longa.
Yergason
Dor no sulco bicipital
Sugere tendinite ou instabilidade do tendão.
Exames complementares
Radiografia
Normal na maioria dos casos.
Serve para excluir:
Ultrassonografia
Boa opção inicial.
Permite visualizar:
Dependente do operador.
Ressonância magnética
Exame de escolha.
Avalia:
Diagnóstico diferencial
Tratamento
Ruptura proximal
Na maioria dos pacientes:
tratamento conservador.
Inclui:
Indicações de cirurgia
Procedimentos:
tenodese
tenotomia
Ruptura distal
Cirurgia
A maioria das rupturas completas deve ser tratada cirurgicamente.
Sem cirurgia pode ocorrer:
perda de 30–50% da força de supinação
perda de 20–40% da força de flexão
fadiga precoce
Idealmente operar nas primeiras 2 a 3 semanas, antes que haja retração significativa do tendão.
Tratamento conservador da ruptura distal
Reservado para:
idosos
baixa demanda funcional
alto risco cirúrgico
rupturas parciais (<50% do tendão) sem perda funcional importante
Reabilitação pós-operatória
Fase 1 (0–2 semanas)
tipoia
controle da dor
mobilização protegida
Fase 2 (2–6 semanas)
ganho progressivo de amplitude
exercícios passivos e ativos assistidos
Fase 3 (6–12 semanas)
fortalecimento progressivo
exercícios isométricos
Fase 4 (>12 semanas)
fortalecimento resistido
retorno gradual ao esporte e ao trabalho pesado
Retorno às atividades de alta demanda costuma ocorrer entre 4 e 6 meses, dependendo da técnica cirúrgica e da evolução clínica.
Prognóstico
Ruptura proximal
Excelente com tratamento conservador na maioria dos casos.
Pode persistir deformidade estética ("Popeye") e discreta perda de força, geralmente sem limitação funcional relevante.
Ruptura distal
Excelente quando reparada precocemente.
O atraso cirúrgico aumenta a dificuldade técnica e o risco de perda funcional permanente.
Fontes
https://maurogracitelli.com/blog/lesao-biceps-ombro
https://www.cirurgiadeombroecotovelo.com.br/lesao-do-cabo-longo-do-biceps/
https://www.marcosbritto.com/2011/07/ruptura-tendao-biceps-braquial.html