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Tratamento da Leucemia Mielóide Crônica

Considerações iniciais

O tratamento da Leucemia Mieloide Crônica (LMC) é hoje altamente eficaz, baseado principalmente no uso de inibidores de tirosina-quinase (ITQ), que bloqueiam a atividade do gene BCR-ABL (resultado do cromossomo Filadélfia).

🧬 Objetivo do tratamento na LMC

  • Suprimir a atividade do BCR-ABL
  • Normalizar hemograma
  • Reduzir e idealmente tornar indetectável a doença molecular
  • Evitar progressão para fases avançadas

 

1️⃣ Tratamento de primeira linha

🔹 Inibidores de tirosina-quinase (ITQ)

🥇 Imatinibe

  • Primeira droga desenvolvida
  • Ainda muito usada
  • Dose habitual: 400 mg/dia VO
  • Excelente eficácia e bom perfil de segurança

🥇 Alternativas de 1ª linha (mais potentes):

  • Dasatinibe
  • Nilotinibe
  • Bosutinibe

📌 Hoje, muitos pacientes iniciam já com ITQ de 2ª geração, especialmente se:

  • Doença de maior risco
  • Necessidade de resposta molecular mais rápida

 

2️⃣ Escolha do ITQ inicial depende de:

  • Idade
  • Comorbidades (cardíacas, pulmonares, metabólicas)
  • Perfil de risco da LMC (Sokal, ELTS)
  • Possíveis efeitos adversos

Exemplos:

  • Nilotinibe → cuidado em pacientes com risco cardiovascular
  • Dasatinibe → pode causar derrame pleural
  • Imatinibe → mais seguro, porém resposta mais lenta

 

3️⃣ Monitorização da resposta (essencial!)

O tratamento não é empírico, ele é monitorado por PCR quantitativo (BCR-ABL).

Metas clássicas:

  • 3 meses: BCR-ABL < 10%
  • 6 meses: < 1%
  • 12 meses: ≤ 0,1% (Resposta Molecular Maior – RMM)

📌 Falha em atingir metas → trocar ITQ.

 

4️⃣ Se houver falha ou resistência

Condutas:

  • Avaliar adesão
  • Solicitar mutação do BCR-ABL
  • Trocar para outro ITQ

🔹 Mutação T315I:

  • Resistente à maioria dos ITQ
  • Tratamento indicado: Ponatinibe
  • Ou transplante de medula óssea, dependendo do caso

 

5️⃣ Transplante de células-tronco hematopoéticas

Hoje é exceção, indicado quando:

  • Falha a múltiplos ITQ
  • Fase acelerada ou crise blástica
  • Mutação resistente grave

 

6️⃣ Tratamento conforme a fase da LMC

🟢 Fase crônica (≈ 90% dos casos)

  • ITQ isolado
  • Excelente prognóstico
  • Sobrevida próxima à população geral

🟡 Fase acelerada

  • ITQ mais potente
  • Avaliar transplante

🔴 Crise blástica

  • ITQ + quimioterapia
  • Transplante se possível

 

7️⃣ Duração do tratamento

  • Em regra: uso contínuo e indefinido
  • Em casos selecionados, com resposta molecular profunda sustentada:
    • Pode-se tentar suspensão supervisionada (remissão livre de tratamento)

Na Leucemia Mieloide Crônica (LMC), o perfil de risco é uma forma padronizada de estratificar o paciente no diagnóstico, estimando prognóstico e ajudando na escolha inicial do inibidor de tirosina-quinase (ITQ).

Os dois escores mais usados hoje são Sokal e ELTS (EUTOS Long-Term Survival).

🎯 Para que servem os escores de risco?

Eles ajudam a:

  • Estimar risco de progressão
  • Prever resposta ao tratamento
  • Definir se vale iniciar com ITQ de 1ª ou 2ª geração
  • Comparar resultados entre estudos

 

- Escore de Sokal

📅 Mais antigo (1984), ainda amplamente usado.

Variáveis utilizadas:

  • Idade
  • Tamanho do baço (cm abaixo do rebordo costal)
  • Plaquetas
  • Blastos no sangue periférico

Classificação:

  • Baixo risco
  • Risco intermediário
  • Alto risco

📌 Limitação:

  • Desenvolvido na era pré-ITQ
  • Tende a superestimar o risco em pacientes mais idosos
lmc q.png

- ELTS (EUTOS Long-Term Survival) – o mais recomendado atualmente

🔬 Criado já na era dos ITQ.

Variáveis utilizadas:

  • Idade
  • Blastos no sangue periférico
  • Plaquetas
  • Tamanho do baço

⚠️ As variáveis são as mesmas do Sokal, mas com pesos estatísticos diferentes.

O que o ELTS mede?

  • Risco de morte relacionada à LMC
  • Não mortalidade geral (isso é importante!)

Classificação:

  • Baixo risco
  • Risco intermediário
  • Alto risco

📌 Vantagem:

  • Melhor preditor de sobrevida específica da LMC
  • Preferido por diretrizes atuais (ELN, NCCN)

 

 Como isso muda a conduta prática?

🔹 Baixo risco (ELTS)

  • Pode iniciar com imatinibe
  • Monitorização padrão

🔹 Risco intermediário ou alto

  • Preferência por ITQ de 2ª geração
    (dasatinibe, nilotinibe, bosutinibe)
  • Busca por resposta molecular mais rápida
  • Monitorização mais rigorosa

 

- Outros escores (menos usados hoje)

  • Hasford (Euro score)
  • EUTOS clássico (não confundir com ELTS)
escala elt.png

Avaliação de comorbidades

As comorbidades são decisivas na escolha do tratamento da LMC, muitas vezes mais importantes que o próprio escore de risco, porque cada inibidor de tirosina-quinase (ITQ) tem um perfil específico de toxicidade.

🎯 Princípio geral

👉 Não existe “melhor ITQ” universal
👉 Existe o melhor ITQ para aquele paciente

A escolha depende de:

  • Fase da LMC
  • Escore de risco (ELTS)
  • Comorbidades
  • Medicamentos em uso
  • Perfil de eventos adversos

1️⃣ Comorbidades cardiovasculares

a) DAC, AVC prévio, DM, dislipidemia, tabagismo

⚠️ Evitar ou usar com cautela:

  • Nilotinibe
    • ↑ risco de:
      • Doença arterial periférica
      • IAM
      • AVC
      • Dislipidemia
      • Hiperglicemia

✔ Preferir:

  • Imatinibe
  • Bosutinibe

📌 Imatinibe é o mais “cardio-seguro”.

 

b) Prolongamento de QT

(QT longo, antiarrítmicos, hipocalemia)

⚠️ Evitar:

  • Nilotinibe

✔ Preferir:

  • Imatinibe
  • Dasatinibe

 

2️⃣ Doença pulmonar

DPOC, fibrose pulmonar, derrame pleural prévio

⚠️ Evitar:

  • Dasatinibe
    • Associado a:
      • Derrame pleural
      • Hipertensão pulmonar

✔ Preferir:

  • Imatinibe
  • Nilotinibe
  • Bosutinibe

 

3️⃣ Doença hepática

(Hepatite crônica, cirrose, elevação de transaminases)

⚠️ Cuidado com:

  • Bosutinibe
  • Nilotinibe
    • Maior hepatotoxicidade

✔ Preferir:

  • Imatinibe (monitorar)
  • Ajuste de dose conforme função hepática

 

4️⃣ Doença renal crônica

(DRC moderada a grave)

  • Imatinibe:
    • Pode reduzir TFG ao longo do tempo
  • Bosutinibe:
    • Geralmente melhor tolerado na DRC

📌 Ajustes de dose podem ser necessários.

 

5️⃣ Diabetes mellitus / síndrome metabólica

⚠️ Evitar:

  • Nilotinibe
    • Pode causar:
      • Hiperglicemia
      • Dislipidemia

✔ Preferir:

  • Imatinibe
  • Dasatinibe
  • Bosutinibe

 

6️⃣ Distúrbios gastrointestinais

(Diarreia crônica, DII, intolerância GI)

  • Bosutinibe → diarreia frequente
  • Imatinibe → náuseas, edema

📌 Ajustar conforme tolerância individual.

 

7️⃣Idade avançada / fragilidade

  • Imatinibe:
    • Mais seguro
    • Mais previsível
    • Menos eventos graves
  • Dose inicial pode ser ajustada

 

8️⃣ Gravidez e fertilidade

  • ITQs são teratogênicos
  • Planejamento:
    • Suspender ITQ
    • Considerar interferon-alfa
    • Acompanhar de perto

 

🔴 Situação especial: mutação T315I

  • Ponatinibe
    • Muito eficaz
    • Alto risco cardiovascular
    • Exige avaliação rigorosa das comorbidades

Alternativas terapêuticas, conforme idade

Estudos mostram que:

  • Idade não reduz resposta molecular
  • Idosos respondem tão bem quanto jovens
  • Mas têm:
    • Mais interrupções por toxicidade
    • Mais eventos adversos

👉 Por isso, o ajuste está na escolha do ITQ, não na exclusão do tratamento.

1️⃣ Paciente jovem (< 40–50 anos)

Objetivos:

  • Resposta molecular rápida e profunda
  • Possibilidade futura de remissão livre de tratamento (RLT)

Estratégia comum:

  • Preferência por ITQ de 2ª geração:
    • Dasatinibe
    • Nilotinibe
    • Bosutinibe

📌 Jovens geralmente toleram melhor os efeitos adversos
📌 Maior chance de atingir MR4–MR4.5 sustentada

2️⃣ Adulto de meia-idade (50–65 anos)

Estratégia individualizada:

  • Avaliar:
    • Risco ELTS
    • Comorbidades (DM, HAS, dislipidemia)
  • Imatinibe ou ITQ de 2ª geração, dependendo do perfil

📌 Muitos pacientes nessa faixa etária se beneficiam de imatinibe com excelente sobrevida.

3️⃣ Idoso (> 65–70 anos)

Mudança principal:

  • Foco maior em segurança do que em potência

Estratégia preferida:

  • Imatinibe como primeira escolha na maioria
  • Doses ajustadas se necessário
  • Monitorização rigorosa de efeitos adversos

📌 A sobrevida desses pacientes geralmente é determinada mais pelas comorbidades do que pela LMC.

4️⃣ Muito idoso / frágil (> 80 anos ou fragilidade clínica)

  • Pode-se usar:
    • Imatinibe em dose reduzida
    • Ou até abordagem mais conservadora
  • Objetivo:
    • Controle hematológico
    • Qualidade de vida

📌 Resposta molecular profunda não é prioridade nesses casos.

5️⃣ Transplante e idade

  • Hoje, raramente indicado
  • Idade avançada:
    • Geralmente contraindica transplante
    • Exceto em casos muito selecionados

Fontes

NCCN – National Comprehensive Cancer Network. NCCN Clinical Practice Guidelines in Oncology: Chronic Myeloid Leukemia. Version 3.2025. Fort Washington, PA: NCCN; 2025. Disponível em: https://www.nccn.org. Acesso em: 28 jan. 2026.

PAILLERET, C. et al. ESMO Guidelines Committee. Chronic Myeloid Leukemia: ESMO Clinical Practice Guideline. Annals of Oncology, v. 31, suppl. 4, p. S38–S51, 2020. 

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SOCIEDADE BRASILEIRA DE HEMATOLOGIA, HEMOTERAPIA E TERAPIA CELULAR. Diretrizes para o tratamento da Leucemia Mieloide Crônica (LMC). São Paulo: SBHH; 2023. 

O’BRIEN, S. G.; GIBSON, B.; et al. Impact of Tyrosine Kinase Inhibitors on Outcomes in Chronic Myeloid Leukemia. New England Journal of Medicine, v. 352, n. 15, p. 1549–1561, 2005. 

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RADICH, J. P.; DALE, D. C.; et al. Molecular Response and Outcomes in Chronic Myeloid Leukemia. Journal of Clinical Oncology, v. 33, n. 3, p. 300–306, 2015.