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Pioderma gangrenoso - diagnóstico

Considerações iniciais

O pioderma gangrenoso (PG) é uma dermatose neutrofílica inflamatória e um diagnóstico de exclusão. Não existe um exame específico que confirme a doença. O diagnóstico é baseado na história clínica, no aspecto da lesão, na histopatologia (para excluir outras causas) e na investigação de doenças associadas.

A investigação tem quatro objetivos:

1. Confirmar que o quadro é compatível com pioderma gangrenoso.

2. Excluir diagnósticos diferenciais.

3. Pesquisar doenças associadas.

4. Avaliar gravidade e extensão.

 

1. História clínica

Perguntas importantes:

- Evolução da lesão

- Início rápido?

- Começou como pústula ou pápula?

- Evoluiu para úlcera dolorosa?

- Crescimento em dias ou semanas?

Dor desproporcional ao aspecto da lesão?

Uma característica típica é: pequena pústula → ulceração rápida → bordas violáceas e socavadas.

Trauma prévio (fenômeno de patergia)

Perguntar se ocorreu:

  • punção venosa
  • cirurgia
  • biópsia
  • picada de inseto
  • arranhão
  • trauma mínimo

No PG, pequenos traumas podem desencadear grandes úlceras.

Sintomas sistêmicos: febre, perda de peso, artralgias, diarreia, sangue nas fezes, dor abdominal, tosse e dispneia

2. Exame físico

Avaliar: Número de lesões - Localização - Aspecto - Tamanho -  Profundidade  - Dor - Sinais de infecção

Aspecto típico:

  • úlcera extremamente dolorosa
  • bordas elevadas
  • borda violácea
  • borda socavada
  • fundo purulento ou necrótico
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Locais frequentes:

  • pernas (principalmente região pré-tibial)
  • pés
  • tronco
  • estomas (PG periestomal)

 

3. Biópsia

A biópsia NÃO confirma o diagnóstico, mas é essencial para excluir outras causas.

Idealmente: biópsia incisional, incluindo  borda ativa da lesão e tecido subcutâneo

Solicitar:

- Histopatologia

- Colorações especiais

- Culturas

Histologia costuma mostrar infiltrado neutrofílico intenso, necrose, abscessos estéreis e vasculite secundária ocasional

 

4. Excluir infecção

Sempre colher:

- Hemoculturas (se febre)

- Cultura da secreção

- Pesquisa de bactérias, fungos e micobactérias

Exames conforme suspeita:

- PCR para HSV

- PCR para VZV

- Leishmania

- Esporotricose

- Micobacteriose

 

5. Exames laboratoriais

Solicitar praticamente em todos os pacientes:

  • Hemograma
  • PCR
  • VHS
  • Função renal
  • Função hepática
  • Albumina
  • Ferritina
  • Glicemia
  • Proteinograma

 

6. Procurar doenças associadas

Aproximadamente 50% dos pacientes apresentam alguma doença sistêmica associada.

a) Doença inflamatória intestinal 

Principal associação.

Investigar: diarreia - sangue nas fezes - dor abdominal

Solicitar calprotectina fecal

colonoscopia se indicada

b) Artrite inflamatória

Perguntar:

  • rigidez matinal
  • dor articular
  • artrite

c) Hemopatias

Pesquisar:

  • gamopatias monoclonais
  • leucemia
  • síndrome mielodisplásica
  • mieloma

Solicitar:

  • Hemograma
  • Eletroforese de proteínas
  • Imunofixação
  • Vasculites

Solicitar conforme suspeita:

  • ANCA
  • ANA
  • Complemento
  • Crioglobulinas
  • Outras doenças - Pesquisar: artrite reumatoide, espondiloartrites, hepatites e HIV

 

7. Exames infecciosos antes do imunossupressor

Como muitos pacientes precisarão de corticoide ou imunobiológicos:

Solicitar:

✓ HIV

✓ Hepatite B

✓ Hepatite C

✓ IGRA ou PPD

✓ Radiografia ou TC de tórax se indicado

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8. Critérios de Delphi (2018)

Atualmente são os critérios diagnósticos mais aceitos.

Critério maior

Biópsia da borda da úlcera mostrando infiltrado neutrofílico.

Critérios menores (≥4)

  • Exclusão de infecção.
  • Patergia.
  • Doença inflamatória intestinal ou artrite inflamatória.
  • Pápula/pústula que ulcerou rapidamente.
  • Úlcera dolorosa com bordas violáceas e socavadas.
  • Múltiplas úlceras, principalmente em pernas.
  • Cicatrização em "papel de cigarro" (cribriforme).
  • Resposta rápida à imunossupressão.
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Exames para solicitar na admissão

  • Hemograma completo.
  • VHS e PCR.
  • Ureia, creatinina e eletrólitos.
  • AST, ALT, FA, GGT, bilirrubinas e albumina.
  • Glicemia e HbA1c.
  • EAS e urinocultura (se indicado).
  • Cultura da lesão para bactérias, fungos e micobactérias.
  • Biópsia incisional da borda ativa para histopatologia e colorações especiais.
  • HIV, HBsAg, anti-HBc, anti-HBs e anti-HCV.
  • IGRA (ou PPD) e radiografia/TC de tórax, conforme contexto.
  • Eletroforese de proteínas séricas ± imunofixação.
  • FAN, ANCA, C3, C4 e crioglobulinas, quando houver suspeita de vasculite.
  • Calprotectina fecal e colonoscopia se houver sintomas gastrointestinais sugestivos de doença inflamatória intestinal.

Essa abordagem sistemática reduz significativamente o risco de tratar como pioderma gangrenoso uma infecção, vasculite, neoplasia ou outra causa de úlcera cutânea.

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Fontes

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  • AHN, C.; NEGUS, D.; HUANG, W. Pyoderma gangrenosum: a review of pathogenesis and treatment. Expert Review of Clinical Immunology, London, v. 14, n. 3, p. 225-233, 2018. DOI: 10.1080/1744666X.2018.1438269.
  • PLUMPTRE, I.; KNABEL, D.; TOMECKI, K. J. Pyoderma Gangrenosum: A Review for the Gastroenterologist. Inflammatory Bowel Diseases, Oxford, v. 24, n. 12, p. 2510-2517, 2018. DOI: 10.1093/ibd/izy174.
  • AFIFI, L.; SANCHEZ, I. M.; WALLACE, M. M. et al. Diagnosis and management of peristomal pyoderma gangrenosum: a systematic review. Journal of the American Academy of Dermatology, St. Louis, v. 78, n. 6, p. 1195-1204.e1, 2018. DOI: 10.1016/j.jaad.2017.12.049.
  • GEHRIS, R. P.; MICHELETTI, R. G. A wound care specialist's approach to pyoderma gangrenosum. Advances in Wound Care, New Rochelle, v. 9, n. 12, p. 675-684, 2020.