Paralisia Supranuclear Progressiva
Considerações iniciais
A paralisia supranuclear progressiva (PSP) é uma doença neurodegenerativa, uma taupatia 4R, que costuma ser confundida inicialmente com doença de Parkinson. O diagnóstico é essencialmente clínico, apoiado pela ressonância magnética e pela exclusão de outras causas. Não existe atualmente um exame de sangue ou de imagem que, isoladamente, confirme a doença em vida. O diagnóstico definitivo ainda é neuropatológico.
Quando suspeitar de PSP?
Os sinais que mais devem chamar atenção são:
Um achado particularmente importante é que o paciente não consegue mover voluntariamente os olhos verticalmente, mas inicialmente consegue fazê-lo quando o movimento é provocado pelo reflexo vestíbulo-ocular. Isso caracteriza uma paresia supranuclear.
Um padrão bastante típico
Quedas precoces + rigidez axial/parkinsonismo + lentificação do olhar vertical → pensar fortemente em PSP.
Como é feito o diagnóstico?
Os critérios mais utilizados são os da Movement Disorder Society (MDS). Eles dividem as manifestações em quatro domínios:
A combinação desses achados permite classificar o paciente como PSP provável, possível ou sugestiva.
A forma clássica: PSP-Richardson
É a apresentação mais característica:
PSP-RS = síndrome de Richardson
Geralmente apresenta:
Entretanto, existem variantes, como:
PSP-parkinsonismo (PSP-P)
Isso é importante porque um paciente pode ter PSP sem apresentar inicialmente a clássica paralisia do olhar vertical.
Qual o papel da ressonância?
A RM de encéfalo é muito importante, principalmente para excluir outras doenças e procurar alterações sugestivas.
O achado clássico é:
Atrofia do mesencéfalo
Com relativa preservação da ponte, produzindo o chamado:
"sinal do beija-flor" (hummingbird sign) ou "sinal do pinguim".
Também pode haver redução do diâmetro ântero-posterior do mesencéfalo.
Mas é importante:
Uma RM normal não exclui PSP, principalmente nas fases iniciais.
A atrofia mesencefálica é um achado de suporte, não um critério isolado para diagnóstico.
Que exames solicitar?
Na prática, eu faria uma investigação em três frentes:
A. RM de encéfalo
Idealmente com:
Objetivos:
B. Avaliação neurológica especializada
Principalmente:
C. Exames laboratoriais
Não existe um exame laboratorial específico para PSP.
Os exames são direcionados para excluir diagnósticos alternativos conforme idade, história e apresentação.
E o DAT-SPECT?
Pode ajudar em alguns casos de parkinsonismo, mostrando degeneração dopaminérgica estriatal.
Mas:
DAT-SPECT não confirma PSP.
Ele pode ajudar principalmente quando a dúvida é entre um tremor/parkinsonismo sem degeneração dopaminérgica e uma síndrome parkinsoniana degenerativa.
O problema é que PSP e doença de Parkinson podem apresentar alterações dopaminérgicas no exame. Portanto, o diagnóstico continua sendo clínico.
Diagnóstico diferencial
É importante diferenciar principalmente de:
Os próprios critérios MDS incluem várias dessas condições como diagnósticos que devem ser excluídos.
Como tratar?
Aqui está o ponto mais importante:
Atualmente não existe tratamento capaz de interromper ou reverter a progressão da PSP.
O tratamento é sintomático e multidisciplinar.
Levodopa: vale a pena tentar?
Sim. Mesmo que a resposta geralmente seja muito inferior à observada na doença de Parkinson, pode haver algum benefício, especialmente na variante PSP-P.
Uma estratégia utilizada é fazer um teste terapêutico adequado com levodopa/carbidopa, aumentando progressivamente até uma dose suficientemente alta se tolerada.
Os critérios MDS consideram resistência à levodopa quando não há melhora significativa mesmo após aproximadamente 1.000 mg/dia, se tolerado, por pelo menos um mês.
Portanto:
PSP não significa que nunca devemos usar levodopa.
Vale fazer uma tentativa adequada, particularmente se houver bradicinesia/rigidez incapacitantes.
Fisioterapia é fundamental
Provavelmente é uma das intervenções mais importantes.
O objetivo não é "curar" a doença, mas:
A fisioterapia deve começar precocemente, e não apenas quando o paciente já está dependente de cadeira de rodas. É importante ter cuidado com bengalas convencionais, pois alguns pacientes com PSP podem não conseguir utilizá-las adequadamente.
Disfagia: uma das complicações mais importantes
A disfagia é extremamente relevante porque aumenta o risco de:
O paciente deve ser avaliado precocemente por fonoaudiólogo especializado em deglutição.
Quando existe suspeita de aspiração, pode ser necessário:
A aspiração silenciosa pode ocorrer, portanto ausência de tosse durante a alimentação não exclui risco.
Salivação excessiva
Pode ser tratada com:
Toxina botulínica nas glândulas salivares
É uma das opções mais eficazes.
Alternativamente, pode-se utilizar glicopirrolato, quando apropriado.
Entretanto, anticolinérgicos precisam ser usados com cautela porque podem provocar:
E a toxina botulínica deve ser utilizada com cautela quando a disfagia já é significativa, pois pode piorá-la.
Distonia e rigidez focal
Quando existe:
a toxina botulínica pode ser bastante útil.
Para espasticidade/distonia, medicamentos como baclofeno ou clonazepam podem ser considerados em situações selecionadas, mas os efeitos adversos precisam ser ponderados.
Alterações cognitivas e comportamentais
É necessário avaliar:
O tratamento é individualizado.
Um aspecto particularmente importante é que alterações comportamentais podem causar perda de julgamento e impulsividade, aumentando o risco de acidentes.
1. Levodopa — principal teste terapêutico
É importante não concluir rapidamente que a levodopa não funciona. O consenso CurePSP recomenda titular a combinação carbidopa/levodopa até aproximadamente 900–1.200 mg/dia de levodopa, mantendo a dose máxima tolerada por pelo menos 1 mês antes de considerar a retirada.
Uma estratégia prática descrita por Rowe et al. é:
A resposta é mais provável na PSP-P (fenótipo parkinsoniano). A instabilidade postural e as quedas geralmente respondem pouco à levodopa.
Importante: se não houver benefício significativo após um teste adequado, a recomendação é reduzir progressivamente e suspender.
Os agonistas dopaminérgicos, IMAO-B, ICOMT e outros medicamentos antiparkinsonianos geralmente não são recomendados rotineiramente na PSP.
Pode ser particularmente interessante quando predominam freezing, alteração da marcha, rigidez axial ou fadiga.
O consenso CurePSP recomenda começar com 50–100 mg uma vez ao dia e aumentar em intervalos de pelo menos 2 semanas, chegando no máximo a 100 mg 3x/dia, conforme tolerabilidade.
Entretanto, há uma diferença entre recomendações: algumas fontes são mais conservadoras e sugerem não ultrapassar 200 mg/dia, principalmente pelo risco de confusão, alucinações, edema e outros efeitos adversos.
Em idosos ou em insuficiência renal, é especialmente importante reduzir a dose, porque a amantadina é predominantemente eliminada pelos rins.
Para distonia/espasticidade podem ser considerados:
Baclofeno
Clonazepam
Para distonia focal, a toxina botulínica é considerada uma das opções mais eficazes, embora a dose dependa do músculo tratado e da preparação utilizada.
A toxina botulínica também é uma das principais opções para sialorreia na PSP. O consenso cita, dependendo da preparação, por exemplo:
A aplicação deve ser feita por profissional familiarizado com o tratamento, porque a injeção nas glândulas submandibulares pode aumentar o risco de disfagia.
Não se deve tratar a PSP como se fosse doença de Parkinson. A levodopa merece um teste adequado, mas muitos medicamentos antiparkinsonianos utilizados na doença de Parkinson têm pouco ou nenhum benefício na PSP. Além disso, medicamentos anticolinérgicos, como biperideno, tri-hexifenidil e benztropina, podem piorar cognição, constipação, retenção urinária e marcha, sendo geralmente evitados.
Em resumo
Eu pensaria em PSP diante de um paciente, geralmente após os 40 anos, com parkinsonismo axial progressivo, quedas precoces, freezing da marcha e alteração progressiva dos movimentos oculares verticais.
O diagnóstico é principalmente clínico, usando os critérios MDS, com RM de encéfalo como exame de apoio e para excluir diagnósticos alternativos. Não há atualmente biomarcador que confirme PSP durante a vida.
O tratamento é principalmente:
Levodopa (teste terapêutico) + fisioterapia + prevenção de quedas + fonoaudiologia/deglutição + terapia ocupacional + tratamento de distonia/sialorreia + manejo cognitivo/comportamental + cuidados paliativos conforme evolução.
Se você quiser, posso também detalhar como aplicar na prática os critérios MDS-PSP em um paciente (incluindo quais combinações de sinais permitem classificar como PSP provável/possível) e montar um fluxograma diagnóstico diferenciando PSP de Parkinson, AMS e degeneração corticobasal.
FONTES