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Pan-tomografia no trauma

Considerações iniciais

A pan-tomografia no trauma, também conhecida como "panscan" ou tomografia de corpo inteiro (WBCT), é um protocolo de exame radiológico rápido que realiza varreduras de múltiplas regiões do corpo de uma só vez. Ela é o padrão-ouro para o diagnóstico de pacientes politraumatizados graves, permitindo identificar rapidamente lesões internas que podem não ser visíveis em um exame físico inicial. 

 

O que o exame abrange

Diferente de uma tomografia seletiva, a pan-tomografia geralmente inclui as seguintes áreas: 

  • Crânio: Realizada sem contraste para detectar hemorragias ou fraturas.
  • Coluna Vertebral: Avaliação de toda a extensão da coluna (cervical, torácica e lombar).
  • Tórax, Abdome e Pelve: Realizados com contraste endovenoso para visualizar órgãos internos (como fígado e baço) e grandes vasos sanguíneos. 

 

Vantagens e Considerações

  • Velocidade e Precisão: Esse protocolo reduz o tempo de diagnóstico e pode melhorar a sobrevida em pacientes com traumas significativos. 
  • Prevenção de Lesões Ocultas: Ajuda a evitar que lesões internas graves passem despercebidas.
  • Radiação: Por abranger grandes áreas do corpo, envolve uma carga maior de radiação, por isso sua indicação deve ser criteriosamente avaliada pela equipe médica.
  • Eficácia: Estudos citados pelo National Institutes of Health (.gov) analisam a utilidade diagnóstica e a relação de custo-benefício desse exame em cenários de emergência. 

Indicações

As indicações para uma pan-tomografia (tomografia de corpo inteiro ou panscan) no trauma são baseadas principalmente na gravidade do mecanismo de lesão e nos sinais vitais do paciente. O objetivo é identificar lesões fatais ocultas de forma rápida em pacientes politraumatizados. 

As principais diretrizes médicas, dividem as indicações em três categorias:

1. Sinais Vitais e Exame Clínico

  • Instabilidade Hemodinâmica: Pressão arterial sistólica baixa (geralmente < 90 ou 100 mmHg) ou taquicardia persistente.
  • Alteração do Nível de Consciência: Escala de Coma de Glasgow (GCS) menor que 14 ou 13.
  • Insuficiência Respiratória: Frequência respiratória muito baixa ou muito alta, ou baixa saturação de oxigênio (< 93%).
  • FAST Positivo: Presença de líquido livre detectado no ultrassom focado para trauma (FAST). 

 

2. Mecanismo de Trauma de Alta Energia

Mesmo que o paciente pareça estável inicialmente, o tipo de acidente pode justificar o exame: 

  • Acidentes Automobilísticos: Colisões em alta velocidade, capotamentos, ejeção do veículo ou morte de outro ocupante no local.
  • Quedas: Quedas de altura superior a 3 metros (ou 2 metros, dependendo do protocolo local).
  • Atropelamentos: Ciclistas ou pedestres atingidos por veículos motorizados.
  • Explosões ou Esmagamentos: Traumas penetrantes ou contusos graves no tronco. 

 

3. Suspeita de Lesões Graves Específicas

  • Fraturas Múltiplas: Suspeita de fratura em dois ou mais ossos longos (como fêmur e úmero).
  • Fraturas Instáveis: Suspeita de fratura instável de pelve ou coluna vertebral.
  • Lesões de Partes Moles: Evidência de trauma contuso importante no tórax ou abdome. 

A decisão final cabe ao líder da equipe de trauma, que avalia se o benefício do diagnóstico rápido supera o risco da exposição à radiação.

Preparo

O preparo para uma pan-tomografia no trauma é focado na agilidade, já que o tempo é crítico para a sobrevivência do paciente. Diferente de uma tomografia agendada, não há jejum ou preparo prévio longo.

Aqui estão os pontos principais de como o exame é realizado:

1. Estabilização e Acesso

Antes de entrar no túnel do tomógrafo, o paciente deve estar minimamente estável (vias aéreas seguras e pressão controlada). É obrigatório ter pelo menos um acesso venoso periférico calibroso (geralmente no braço) para a injeção rápida do contraste.

 

2. Posicionamento

O paciente é colocado em decúbito dorsal. Os braços são geralmente levantados acima da cabeça para as imagens do tórax e abdome, evitando artefatos (sombras) na imagem, a menos que haja suspeita de fratura nos braços que impeça o movimento.

 

3. As Fases do Contraste (O "Pulo do Gato")

O contraste iodado é injetado na veia para destacar vasos e órgãos. O protocolo moderno mais comum é o de "bolus único" ou "fase única", que funciona assim:

Injeção em duas etapas: Aplica-se uma parte do contraste, espera-se alguns segundos e aplica-se o restante.

Captura única: O scanner passa pelo corpo uma única vez. Isso permite que a imagem mostre, ao mesmo tempo, as artérias (fase arterial) e os órgãos sólidos como fígado e rins (fase venosa/portal). Isso ganha tempo e reduz a dose de radiação.

 

4. A Varredura (O Scan)

O processo de capturar a imagem é extremamente rápido, durando cerca de 2 a 5 minutos no total:

Topograma: Uma "foto" inicial para mapear onde o scan vai começar e terminar.

Crânio e Cervical: Geralmente feitos primeiro, sem contraste (para ver sangramentos agudos).

Corpo (Tórax ao Púbis): Feito logo após a injeção do contraste.

 

5. Pós-Processamento

Após o paciente sair da sala, o computador reconstrói as imagens em 3D e em diferentes planos (frente, lado, cima) para que o radiologista possa procurar por fraturas minúsculas ou pequenos vazamentos de sangue.

 

Fontes

RADIOPAEDIA. Whole body CT protocol (trauma panscan). [S. l.], 2023. Disponível em: radiopaedia.org. Acesso em: 12 maio 2026.

SANTOS, L. R. et al. A importância da tomografia de corpo inteiro no atendimento ao paciente politraumatizado: uma revisão de literatura. Brazilian Journal of Development, Curitiba, v. 8, n. 7, p. 52412-52425, jul. 2022. Disponível em: brazilianjournals.com.br. Acesso em: 12 maio 2026.

GODINHO, M. Tomografia de corpo inteiro no trauma: indicações e limitações. São Paulo: CREMESP, 2016. Disponível em: cremesp.org.br. Acesso em: 12 maio 2026.

STENGEL, D. et al. Whole-body CT in trauma patients: a systematic review and meta-analysis. National Institutes of Health (PMC), [S. l.], v. 10, n. 3, mar. 2024. Disponível em: nih.gov. Acesso em: 12 maio 2026.