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Investigação da Doença Celíaca

Considerações iniciais

Na investigação de doença celíaca, o ideal é seguir uma sequência porque alguns exames dependem de o paciente estar consumindo glúten. Se a pessoa já retirou glúten da dieta, os testes podem dar falso negativo.

1) Suspeita clínica

Pensar em doença celíaca em situações como:

diarreia crônica, distensão abdominal, perda de peso;

anemia ferropriva sem causa clara;

osteopenia/osteoporose precoce;

deficiência de ferro, folato ou vitamina B12;

aftas recorrentes;

aumento inexplicado de transaminases;

infertilidade;

familiares de primeiro grau com doença celíaca;

doenças associadas (ex.: diabetes tipo 1, algumas doenças autoimunes).

 

2) Confirmar que o paciente está ingerindo glúten

Antes da investigação:

o paciente deve estar consumindo glúten regularmente (ex.: pão, massas, etc.).

Se já retirou, pode ser necessário fazer uma reintrodução de glúten antes dos exames (decisão médica).

 

3) Sorologia inicial (primeiro exame)

O principal rastreio é:

Anti-transglutaminase tecidual IgA (anti-TTG IgA)

IgA total

Por quê pedir IgA total?

Porque alguns pacientes com doença celíaca têm deficiência de IgA, e o anti-TTG IgA pode vir falsamente negativo.

Interpretação:

anti-TTG IgA positivo + IgA normal

→ forte suspeita → geralmente vai para endoscopia com biópsia.

anti-TTG IgA negativo + IgA baixa

→ pedir testes baseados em IgG:

anti-TTG IgG

anti-peptídeo de gliadina deamidada IgG (anti-DGP IgG)

 

4) Se sorologia positiva → Endoscopia digestiva alta com biópsia

A confirmação em adultos geralmente é feita com:

EDA + biópsias do duodeno

O médico coleta múltiplos fragmentos:

bulbo duodenal;

segunda porção do duodeno.

O patologista avalia:

atrofia das vilosidades;

hiperplasia de criptas;

aumento de linfócitos intraepiteliais.

 

5) Classificação histológica

A biópsia pode ser graduada (ex.: classificação de Marsh):

Marsh 0: normal

Marsh 1: aumento de linfócitos

Marsh 2: hiperplasia de criptas

Marsh 3: atrofia vilositária (mais típico)

 

6) Genética (HLA-DQ2/DQ8) — quando usar?

Não é exame para confirmar, mas ajuda em casos duvidosos.

Se HLA-DQ2 e DQ8 negativos → doença celíaca fica muito improvável.

Se positivo → apenas indica predisposição (muita gente saudável tem).

Útil em:

paciente já sem glúten antes da investigação;

sorologia e biópsia discordantes;

dúvida diagnóstica.

Como avaliar se o paciente não está consumindo glúten no momento da investigação

A interpretação fica mais difícil porque tanto a sorologia quanto a biópsia podem normalizar após a retirada do glúten.

1) Melhor opção: teste genético HLA-DQ2 / HLA-DQ8

É o exame mais útil nesse cenário.

HLA-DQ2 e HLA-DQ8 negativos → praticamente exclui doença celíaca (valor preditivo negativo muito alto).

HLA-DQ2 ou DQ8 positivo → não confirma, apenas mostra predisposição (muitas pessoas têm).

Exemplo:

Paciente sem glúten há meses + HLA negativo → provavelmente não precisa prosseguir.

Paciente sem glúten + HLA positivo → ainda fica a dúvida.

 

2) Reintrodução de glúten ("gluten challenge")

Se a suspeita é alta e o paciente aceita, pode ser necessário voltar a ingerir glúten antes dos exames.

Em geral:

consumo diário de glúten por algumas semanas (o tempo varia conforme protocolo e tolerância);

depois repetir:

anti-transglutaminase IgA + IgA total;

eventualmente EDA com biópsia.

 

3) Fazer sorologia mesmo sem glúten

Pode ser feita, mas um resultado negativo não exclui doença celíaca.

Anti-TTG IgA negativo em paciente sem glúten → pode ser falso negativo.

Anti-TTG IgA muito positivo → aumenta bastante a suspeita, mesmo assim deve ser contextualizado.

 

4) Se o paciente já fez endoscopia antes de retirar glúten

Isso ajuda muito:

se havia atrofia vilositária típica → pode apoiar o diagnóstico;

se a biópsia era normal antes → torna menos provável.

Na prática, o fluxo seria:

Paciente sem glúten + suspeita de celíaca

                        ⬇️

            HLA-DQ2/DQ8

        ➡️ Negativo: praticamente exclui

        ➡️ Positivo: considerar reintrodução de glúten + sorologia/biópsia

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Sorologias

Além do anti-transglutaminase tecidual (anti-TTG), o principal anticorpo utilizado na investigação de doença celíaca é o anti-endomísio (EMA).

Os principais são:

1) Anti-transglutaminase tecidual IgA (anti-TTG IgA)

É o teste de escolha inicial na maioria dos casos.

Boa sensibilidade e especificidade.

Mais fácil e mais barato que o anti-endomísio.

Sempre pedir junto:

IgA total (para detectar deficiência de IgA).

 

2) Anti-endomísio IgA (EMA-IgA)

Sim, esse é o que você citou.

Características:

Muito alta especificidade (próxima de 95–100% em muitos estudos).

Geralmente usado como:

confirmação quando anti-TTG vem positivo;

quando há dúvida diagnóstica.

Limitações:

Mais caro;

Depende de imunofluorescência (mais subjetivo);

Pode não estar disponível em todos os laboratórios.

 

3) Anti-peptídeo de gliadina deamidada (anti-DGP)

Principalmente:

Anti-DGP IgG

É útil em:

deficiência de IgA;

crianças pequenas;

casos em que anti-TTG IgA é negativo mas a suspeita permanece.

 

4) Anticorpos antigos (menos usados)

Anti-gliadina IgA/IgG

Hoje são pouco recomendados porque têm menor acurácia.

Um painel prático:

Paciente com glúten na dieta:

Anti-TTG IgA

IgA total

Se IgA normal:

Anti-TTG IgA positivo → EDA + biópsia duodenal

Se dúvida → EMA-IgA pode ajudar

Se IgA baixa:

Anti-TTG IgG

Anti-DGP IgG

considerar EMA-IgG (menos usado)

Um ponto interessante: quando o anti-TTG vem muito alto (ex.: >10 vezes o limite superior) e o EMA também é positivo, a probabilidade de doença celíaca fica muito elevada. Em adultos, porém, ainda costuma-se confirmar com biópsia duodenal.

Fontes

HUSBY, Steffen et al. European Society Paediatric Gastroenterology, Hepatology and Nutrition guidelines for diagnosing coeliac disease 2020. Journal of Pediatric Gastroenterology and Nutrition, Philadelphia, v. 70, n. 1, p. 141-156, 2020. DOI: 10.1097/MPG.0000000000002497.

RUBIO-TAPIA, Alberto et al. ACG clinical guidelines: diagnosis and management of celiac disease. American Journal of Gastroenterology, New York, v. 118, n. 1, p. 59-76, 2023. DOI: 10.14309/ajg.0000000000002072.

LUDVIGSSON, Jonas F. et al. Diagnosis and management of adult coeliac disease: guidelines from the British Society of Gastroenterology. Gut, London, v. 63, n. 8, p. 1210-1228, 2014. DOI: 10.1136/gutjnl-2013-306578.

LEBWOHL, Benjamin; SANDERS, David S.; GREEN, Peter H. R. Coeliac disease. The Lancet, London, v. 391, n. 10115, p. 70-81, 2018. DOI: 10.1016/S0140-6736(17)31796-8.

CATASSI, Carlo et al. The HLA-DQ2 and DQ8 alleles are strongly associated with celiac disease: a systematic review. American Journal of Gastroenterology, New York, v. 105, n. 7, p. 1680-1689, 2010.

CAIO, Giacomo et al. Celiac disease: a comprehensive current review. BMC Medicine, London, v. 17, Article 142, 2019. DOI: 10.1186/s12916-019-1380-z.