Investigação de Anemia na Insuficiência Renal Crônica agudizada
Considerações iniciais
Esse é um cenário relativamente comum em pacientes com doença renal crônica (DRC) agudizada, mas a necessidade de múltiplas transfusões apesar do uso de eritropoetina deve motivar uma investigação sistemática. Antes de simplesmente aumentar a dose da eritropoetina, é preciso identificar causas de hiporresponsividade aos agentes estimuladores da eritropoiese (ESA).
1. Confirmar a necessidade transfusional
Uma hemoglobina baixa, menor que 7g/dl, justifica transfusão na maioria dos pacientes, principalmente se houver:
Após estabilização, o foco deve ser reduzir novas transfusões.
2. Confirmar se realmente é anemia da DRC
Solicitar:
Esses exames ajudam a excluir:
3. Investigar deficiência de ferro (principal causa)
Mesmo após transfusões, a deficiência funcional de ferro é muito frequente.
Segundo as diretrizes KDIGO, recomenda-se:
Ferritina
ou
TSAT
<20–30%
→ indicam necessidade de reposição de ferro.
Nos pacientes internados ou com DRC avançada, a reposição intravenosa é preferível.
Exemplos:
4. Verificar se a dose de eritropoetina é suficiente
O paciente recebe:
Eritropoetina 4.000 UI SC, 3x/semana
Total: 12.000 UI/semana
Essa é uma dose inicial ou intermediária.
Na ausência de resposta e após corrigir deficiência de ferro e outras causas, pode-se aumentar a dose.
Esquemas frequentemente utilizados:
ou ajuste conforme peso e resposta.
A elevação deve ser gradual, geralmente a cada 4 semanas, evitando aumentos rápidos.
5. Avaliar causas de resistência à eritropoetina
As principais são:
Infecção
A inflamação aumenta a hepcidina, reduz a disponibilidade de ferro e diminui a resposta à ESA.
Solicitar:
Hiperparatireoidismo secundário
Pode causar resistência importante.
Solicitar:
Desnutrição
Avaliar:
Intoxicação por alumínio
Mais rara atualmente, mas considerar em pacientes dialíticos expostos.
Diálise inadequada
Caso já esteja em hemodiálise.
6. Procurar perda crônica de sangue
Mesmo sem sangramento aparente, pesquisar:
7. Pensar em causas hematológicas
Se persistir dependente de transfusão:
Nesses casos:
8. Quando suspeitar de aplasia pura da série vermelha por anti-EPO?
É rara, mas deve ser considerada se houver:
Nesses casos, a eritropoetina deve ser suspensa e o paciente encaminhado à Hematologia.
Conduta prática
Solicitar imediatamente
Se houver suspeita de hemólise ou doença hematológica, ampliar a investigação.
Se ferritina e TSAT estiverem baixos
Reposição de ferro intravenoso.
Se ferro adequado
Após controle da infecção e exclusão de outras causas, considerar aumento da dose da eritropoetina.
Se continuar necessitando de transfusões
Encaminhar para Hematologia e investigar doenças da medula óssea.
Um detalhe importante
Num paciente necessitou que necessita de transfusões, mesmo já usando eritropoetina, é um alerta. Isso é mais grave do que a anemia habitual da DRC e aumenta a probabilidade de existir um fator adicional, como:
Portanto, não aumentar eritropoetina antes de documentar o estado do ferro (ferritina e TSAT) e excluir essas causas, pois essa é a recomendação das diretrizes KDIGO 2025 para anemia na DRC. Uma investigação dirigida costuma identificar a causa da hiporresponsividade e evita tanto transfusões repetidas quanto o uso ineficaz de doses elevadas de ESA.
Fontes