INSULINOTERAPIA HOSPITALAR NA ENFERMARIA
Considerações iniciais
O manejo da hiperglicemia no paciente internado em enfermaria exige uma mudança de mentalidade em relação ao paciente ambulatorial. No hospital, o objetivo não é a "glicada perfeita", mas sim manter a glicemia estável entre 140 e 180mg/dL, evitando tanto a hiperglicemia franca (que prejudica a cicatrização e a imunidade) quanto o maior perigo imediato: a hipoglicemia (< 70 mg/dL)
Em um paciente diabético internado em enfermaria com hiperglicemia persistente, o princípio é ajustar tanto a insulina basal (NPH) quanto a insulina prandial/corretiva (ultrarrápida) com base no padrão das glicemias, e não apenas corrigir valores isolados.
Metas glicêmicas habituais no hospital
Passo 1: Verificar o padrão das glicemias
Se glicemia de jejum elevada
→ aumentar a NPH da noite.
Exemplo:
Aumentar 10–20%: 20 U → 22–24 U
Se glicemias elevadas antes do almoço
→ aumentar NPH da manhã.
Exemplo:
Aumentar cerca de 10–20%: 30 U → 33–36 U
Se hiperglicemia pós-prandial
→ aumentar insulina ultrarrápida da refeição correspondente.
Exemplo:
Se usa:
Pode aumentar para: 8–10 U
Passo 2: Utilizar escala de correção
Exemplo de escala para paciente com resistência moderada à insulina:
Regra prática para ajuste diário
Se o paciente recebeu repetidamente doses de correção:
Exemplo - Últimas 24 horas:
Pode incorporar cerca de 50–80% dessas correções ao esquema fixo:
12 U × 0,7 = 8 U
Novo esquema:
Situação comum
Paciente:
Glicemias:
Possível ajuste:
Reavaliar em 24 horas.
Quando suspeitar de necessidade de doses maiores
Necessidade diária >0,6–1 U/kg/dia é comum em:
Paciente sem alimentação oral
Se estiver em jejum:
O Erro Comum: Abusar da Ultrarrápida de Correção (Falso "Sliding Scale")
Se o paciente acorda com 250 mg/dL, toma a ultrarrápida para corrigir, e antes do almoço está com 240mg/dL de novo, o problema não é a falta de correção, é a falta de insulina basal ou prandial.
Ficar apenas corrigindo a glicemia com ultrarrápida ("correr atrás do rabo") gera picos e vales, aumentando a variabilidade glicêmica. A ultrarrápida serve para cobrir o carboidrato da refeição (prandial) ou corrigir imprevistos, mas quem segura o dia é a basal (NPH).
Passo a Passo para o Ajuste das Doses
Para ajustar as doses de forma segura, você deve analisar o padrão das últimas 24 a 48 horas.
Passo A: Analisar os Horários das Hiperglicemias
A insulina NPH tem seu pico de ação entre 4 e 10 horas após a aplicação. Portanto, a hiperglicemia em um horário reflete a falta de insulina aplicada horas antes:
Passo B: Regra de Ajuste Seguro (Aumento de 10% a 20%)
Se você identificou o padrão de hiperglicemia e não houve episódios de hipoglicemia no último dia, aumente a dose da insulina responsável por aquele período em 10% a 20% (ou 1 a 2 unidades na ultrarrápida, e 2 a 4 unidades na NPH).
Exemplo Prático:
O paciente está usando: NPH 16 UI (manhã) + NPH 8 UI (22h).
3. Como Estruturar a Prescrição de Forma Segura
Uma prescrição de enfermaria ideal para esse perfil deve conter três componentes claros:
1. Insulina Basal (NPH)
Dividida em pelo menos 2 vezes ao dia (idealmente às 7h e às 22h — aplicar NPH antes do jantar aumenta muito o risco de hipoglicemia na madrugada, o ideal é na hora de dormir).
2. Insulina Prandial (Ultrarrápida Fixa)
Se o paciente está comendo bem, ele precisa de uma dose fixa de ultrarrápida antes das principais refeições (café, almoço e jantar) para cobrir a carga de carboidratos do hospital.
Fontes
SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES. Manejo da hiperglicemia hospitalar em pacientes não-críticos. Diretriz SBD 2025. São Paulo: Sociedade Brasileira de Diabetes, 2025. Disponível em: Diretriz SBD – Manejo da hiperglicemia hospitalar em pacientes não críticos.
SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES. Diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes 2025. São Paulo: Sociedade Brasileira de Diabetes, 2025. Disponível em: Diretrizes SBD 2025.
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SILVA JÚNIOR, W. S. et al. The 2021–2022 position of Brazilian Diabetes Society on insulin therapy in type 1 diabetes: an evidence-based guideline to clinical practice. Diabetology & Metabolic Syndrome, v. 14, n. 189, 2022. Disponível em: PubMed – Brazilian Diabetes Society insulin therapy guideline.