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Hipercalemia nos períodos interdialíticos

Considerações iniciais

Um paciente em hemodiálise intermitente (3x/semana) que apresenta potássio persistentemente acima de  5,5 mEq/L nos dias interdialíticos merece avaliação, mas não necessariamente uma diálise de urgência se estiver assintomático, sem alterações eletrocardiográficas e esse for um valor estável. O objetivo é identificar a causa e reduzir a carga corporal de potássio.

1. Confirmar se é uma hiperpotassemia verdadeira

Antes de intervir, verificar:

  • Hemólise da amostra.
  • Leucocitose ou trombocitose importantes (podem causar pseudohiperpotassemia).
  • Tendência dos valores (é persistente ou foi um episódio isolado?).

 

2. Solicitar ECG

Todo paciente com K ≥ 5,5–6,0 mEq/L deve realizar um eletrocardiograma.

Se houver:

  • ondas T apiculadas;
  • alargamento do QRS;
  • bloqueios;
  • bradicardia

Se houver alterações → tratar como hiperpotassemia potencialmente grave, independentemente do valor absoluto.

 

 

3. Revisar a prescrição dialítica (principal medida)

Esta costuma ser a intervenção mais eficaz.

Avaliar:

Dose de diálise (Kt/V)

  • Kt/V alvo ≥ 1,2 por sessão.

Tempo de diálise

Sessões de 3 horas podem ser insuficientes para alguns pacientes.

Muitas vezes aumentar para:

  • 4 horas
  • 4h30

melhora o controle do potássio.

Fluxo sanguíneo

Idealmente:

  • 300–400 mL/min

Fluxo do dialisato

500–800 mL/min

 

4. Rever o banho de potássio

Verificar qual concentração de potássio está sendo utilizada no dialisato.

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5. Avaliar ingestão alimentar

É uma das causas mais frequentes.

Investigar consumo de:

  • banana;
  • laranja;
  • água de coco;
  • tomate;
  • batata;
  • feijão;
  • chocolate;
  • castanhas;
  • frutas secas;
  • substitutos do sal contendo potássio.

Encaminhamento para nutricionista renal é recomendado.

 

6. Revisar medicamentos

Suspender ou reavaliar, quando possível:

  • IECA;
  • BRA;
  • espironolactona;
  • eplerenona;
  • amilorida;
  • trimetoprim;
  • AINEs;
  • tacrolimo;
  • ciclosporina.

No entanto, IECA/BRA podem trazer benefícios cardiovasculares e renais; a decisão deve ser individualizada.

 

7. Corrigir acidose metabólica

Se o paciente ainda apresenta diurese residual e bicarbonato persistentemente baixo (<22 mEq/L), considerar bicarbonato de sódio oral, quando não houver contraindicações, pois a correção da acidose pode reduzir discretamente o potássio.

 

8. Considerar quelantes de potássio

Se a hiperpotassemia persistir apesar das medidas acima:

Patiromer

  • Boa evidência em pacientes com DRC e também em alguns pacientes dialíticos.

Ciclossilicato de zircônio sódico (SZC)

  • Estudos demonstram redução do potássio interdialítico em pacientes em hemodiálise (por exemplo, estudo DIALIZE).

Esses agentes podem ser úteis principalmente para manter potássio <5,5 mEq/L entre as sessões, quando disponíveis.

 

9. Avaliar a frequência da diálise

Se houver:

  • hiperpotassemia recorrente;
  • sobrecarga volêmica;
  • ganho interdialítico excessivo;
  • inadequação dialítica;

pode ser necessário aumentar para:

  • 4 sessões/semana

ou individualizar o esquema.

Conduta prática 

Se o paciente:

  • está assintomático;
  • ECG normal;
  • faz HD regularmente;
  • K = 5,9 mEq/L apenas no dia sem diálise;

Passo a passo:

  1. ECG.
  2. Confirmar o valor (repetir se houver dúvida).
  3. Revisar dieta.
  4. Revisar medicamentos.
  5. Avaliar Kt/V e adequação da diálise.
  6. Verificar concentração de potássio do banho (considerar reduzir de 3 para 2 mEq/L, se apropriado).
  7. Considerar aumentar o tempo ou a frequência da diálise se a hiperpotassemia for persistente.
  8. Se persistir apesar dessas medidas, considerar um quelante de potássio (como patiromer ou ciclossilicato de zircônio sódico, conforme disponibilidade e indicação).

 

Para definir a melhor conduta, seriam particularmente importantes:

  • Qual é o banho de potássio utilizado (1, 2 ou 3 mEq/L)?
  • Em qual dia foi colhido o potássio de 5,9 mEq/L (após o intervalo curto de 2 dias ou após o intervalo longo de 3 dias)?
  • O paciente ainda tem diurese residual?
  • Qual é o bicarbonato sérico?
  • Há alterações no ECG?

Essas informações ajudam a decidir entre ajustar a prescrição dialítica, iniciar um quelante de potássio ou intensificar a diálise.

Fontes

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