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Hepatite aguda isquêmica

Considerações iniciais

A hepatite aguda isquêmica (também chamada de “shock liver” ou hepatite hipóxica) é uma lesão hepática causada por queda importante da perfusão sanguínea ou da oxigenação do fígado.

Ela costuma ocorrer em pacientes gravemente enfermos, principalmente após episódios de:

  • choque séptico
  • choque cardiogênico
  • insuficiência cardíaca grave
  • hipotensão intensa
  • parada cardíaca
  • insuficiência respiratória grave
  • hipoxemia prolongada

 

Fisiopatologia

Na grande maioria dos casos, a hepatite isquêmica NÃO ocorre por obstrução direta da artéria hepática ou da veia porta. O mecanismo principal é uma hipoperfusão global do fígado, isso geralmente acontece em estados de choque ou baixo débito cardíaco.

Insuficiência cardíaca - Especialmente: IC direita e choque cardiogênico. O fígado fica congestionado e mal perfundido.

Choque séptico - Há vasodilatação, hipotensão e microdisfunção circulatória

Hipoxemia grave. Exemplo:

  • insuficiência respiratória
  • ventilação inadequada

Mesmo com fluxo preservado, o sangue chega pobre em oxigênio.

 

COMO O FÍGADO RECEBE SANGUE

O fígado tem um suprimento sanguíneo especial:

1. Veia porta

Fornece cerca de 70–75% do fluxo sanguíneo. Mas é sangue relativamente menos oxigenado.

2. Artéria hepática

Fornece: 25–30% do fluxo. Mas leva sangue muito rico em oxigênio.

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O QUE ACONTECE NA HEPATITE ISQUÊMICA

Na prática, o problema geralmente é:

↓ pressão arterial - ↓ débito cardíaco - ↓ oxigenação

Então o fluxo total hepático cai drasticamente. O fígado continua aberto anatomicamente, mas o sangue chega insuficiente, o oxigênio não atende a demanda metabólica. É uma “isquemia funcional”.

 

REGIÃO MAIS AFETADA

A área mais vulnerável é a Zona 3 do ácino hepático (região centrolobular). Porque ela fica: mais distante da entrada de sangue arterial, com menor tensão de oxigênio naturalmente. Então é a primeira região a sofrer necrose.

 

ENTÃO NÃO É TROMBOSE?

Na maioria das vezes, NÃO. A hepatite isquêmica clássica, não é causada por trombo e não é causada por oclusão vascular localizada. Ela é uma insuficiência circulatória sistêmica do fígado.

MAS PODE HAVER OCLUSÃO VASCULAR? Sim, mas isso é menos comum e costuma receber outros nomes.

Oclusão da artéria hepática - não é o quadro clássico de “shock liver”.

Pode ocorrer

  • pós-transplante
  • trombose
  • embolia

Pode causar:

  • infarto hepático focal
  • necrose hepática

 

Trombose da veia porta

Geralmente NÃO causa hepatite isquêmica aguda importante porque o fígado recebe sangue da artéria hepática como compensação. Pode causar: hipertensão portal, dor abdominal  e disfunção hepática variável.

 

E A MICRO CIRCULAÇÃO?

Na sepse grave ocorre também: vasoconstrição esplâncnica, disfunção endotelial,  microtrombos  e alteração mitocondrial. Então mesmo sem obstrução grande, o hepatócito não consegue utilizar adequadamente oxigênio.

 

Quadro clínico

Muitas vezes o quadro hepático é silencioso, e o paciente já está grave por outra causa.

Pode ocorrer:

  • mal-estar
  • náuseas
  • icterícia leve
  • dor em hipocôndrio direito (menos comum)
  • alteração do sensório se houver falência hepática

O quadro dominante geralmente é o da doença de base:

  • sepse
  • choque
  • insuficiência cardíaca etc.

 

Achados laboratoriais clássicos

O padrão laboratorial é muito característico:

Transaminases MUITO elevadas

Frequentemente:

  • AST/TGO > 1000
  • ALT/TGP > 1000

Às vezes chegam:

  • 5000–10000 U/L

A AST costuma subir mais que ALT inicialmente.

LDH extremamente elevado

Isso é um dado importante.

A LDH geralmente sobe muito e ajuda a diferenciar de hepatites virais.

Bilirrubina

  • pode ser normal inicialmente
  • ou subir discretamente/moderadamente

Icterícia intensa não é o principal achado no início.

TAP/INR

Pode alargar se houver disfunção hepática importante.]

 

Como suspeitar fortemente

Paciente em UTI ou grave +:

  • hipotensão
  • uso de vasopressores
  • insuficiência cardíaca
  • sepse

associado a:

  • AST/ALT >1000
  • LDH muito alta
  • rápida queda das enzimas após estabilização

→ fortemente sugestivo de hepatite isquêmica.

 

Padrão temporal típico

Muito clássico:

  1. episódio hipotensivo/hipóxico
  2. após 24–48h → explosão das transaminases
  3. melhora rápida em 3–7 dias se perfusão for corrigida

A queda rápida das enzimas ajuda no diagnóstico.

 

Diagnóstico diferencial

Importante diferenciar de:

  • hepatite viral aguda
  • hepatite medicamentosa (paracetamol principalmente)
  • hepatite autoimune
  • obstrução biliar aguda
  • rabdomiólise

 

Tratamento

Não existe tratamento específico para o fígado.

O manejo é corrigir a causa:

  • restaurar perfusão
  • tratar choque
  • melhorar oxigenação
  • tratar sepse
  • otimizar débito cardíaco

 

Prognóstico

O prognóstico depende muito mais da doença de base do que da lesão hepática em si.

Se a perfusão for restaurada rapidamente:

  • o fígado costuma recuperar completamente.

Mas em pacientes críticos, a mortalidade global pode ser alta devido ao choque/septicemia.

FONTES

HENRION, Jean. Ischemic hepatitis. Acta Gastro-Enterologica Belgica, [S. l.], v. 63, n. 2, p. 232-236, apr./june 2000.

WASEEM, Nauman et al. Ischemic Hepatitis: A Review of Pathophysiology, Clinical Presentation, and Management. American Journal of Medicine, [S. l.], v. 136, n. 4, p. 343-349, apr. 2023.

DIAS, Eduardo F. et al. Doppler ultrasonography in ischemic hepatitis: vascular and parenchymal findings. Radiologia Brasileira, São Paulo, v. 54, n. 2, p. 112-117, 2021.

COELHO, Henrique S. M. et al. Insuficiência Hepática Aguda e Hepatopatias Isquêmicas. In: FEDERAÇÃO BRASILEIRA DE GASTROENTEROLOGIA. Tratado de Gastroenterologia e Hepatologia. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora Rubio, 2022. cap. 84, p. 812-821.