Granulomatose Eosinofílica com Poliangeíte (GEPA),
Considerações iniciais
Granulomatose Eosinofílica com Poliangeíte (GEPA), anteriormente conhecida como Síndrome de Churg-Strauss, é uma vasculite sistêmica autoimune rara que afeta vasos sanguíneos de pequeno e médio calibre. A sua principal marca registrada é a associação com asma grave, inflamação dos vasos e um aumento brutal de um tipo de célula de defesa no sangue e nos tecidos: os eosinófilos (eosinofilia).
O mecanismo envolve uma resposta imune exagerada, principalmente via linfócitos Th2 e IL-5, levando a aumento importante de eosinófilos, infiltração eosinofílica em tecidos, formação de granulomas e inflamação de vasos (vasculite necrosante). A doença pode afetar pulmões, pele, nervos periféricos, coração, rins, trato gastrointestinal e seios da face.
A doença classicamente evolui em três fases sequenciais, embora elas possam se sobrepor ao longo dos anos:
1. As Três Fases Clínicas da Doença
Fase Prodrômica (Alérgica)
Pode durar anos ou até décadas antes de a vasculite real aparecer.
Asma grave e de difícil controle: Geralmente surge na idade adulta (entre os 30 e 50 anos) em pessoas que nunca tiveram asma na infância. Ela exige doses altas de corticoides.
Rinite alérgica e Polipose nasal: Obstrução nasal crônica, sinusites de repetição e formação de pólipos no nariz.
Fase Eosinofílica (Infiltrativa)
Os eosinófilos começam a invadir e danificar diretamente os órgãos.
Infiltrados pulmonares: Causam episódios parecidos com pneumonia (tosse, falta de ar e febre), mas que na verdade são acúmulos de eosinófilos no tecido pulmonar (Pneumonia Eosinofílica).
Comprometimento Gastrointestinal: Dor abdominal intensa, diarreia e sangramentos devido à infiltração de eosinófilos nas paredes do estômago e intestino.
Fase Vasculítica (Última Fase)
É o momento em que os vasos sanguíneos inflamam (vasculite), o que pode cortar a circulação de tecidos nobres.
Mononeurite Múltipla (Neurológica): É um dos sintomas mais típicos. Ocorre a inflamação dos vasos que nutrem os nervos periféricos, causando dor súbita em queimação, perda de sensibilidade ou perda de força em uma mão ou um pé (como o "pé caído").
Púrpura palpável: Lesões arroxeadas e elevadas na pele, principalmente nas pernas.
Lesão Cardíaca: É a complicação mais grave e a principal causa de mortalidade se não tratada. Pode causar miocardite, pericardite e insuficiência cardíaca.
🔬 Diagnóstico e Critérios Laboratoriais
O diagnóstico é um quebra-cabeça que junta clínica e laboratório:
Hemograma: Mostra uma eosinofilia marcante, frequentemente com os eosinófilos representando mais de 10% do total de leucócitos (ou > 1.500mm3 em termos absolutos).
Marcador Imunológico (p-ANCA): O anticorpo ANCA (anticorpo anticitoplasma de neutrófilos), especificamente com padrão perinuclear (p-ANCA / anti-MPO), está presente em cerca de 40% a 50% dos pacientes. (Nota clínica: os pacientes ANCA-positivos tendem a ter mais sintomas de vasculite/rim/nervo, enquanto os ANCA-negativos têm mais manifestações cardíacas e pulmonares).
Biópsia: O diagnóstico definitivo é feito demonstrando granulomas extravasculares e infiltração eosinofílica na biópsia de tecidos afetados (como pele, nervo ou pulmão).
Quando suspeitar?
O cenário clássico:
Paciente com asma + eosinofilia + algum órgão acometido
Exemplos:
Como diagnosticar?
Não existe um exame único. O diagnóstico é clínico + laboratorial + imagem + às vezes biópsia.
1) Hemograma com eosinófilos
Principal exame de triagem.
Achado típico:
eosinofilia ≥10% dos leucócitos
ou
eosinófilos absolutos geralmente ≥1.000/mm³
Valores muito altos aumentam suspeita.
2) ANCA
Pesquisar:
p-ANCA
anti-MPO
Na GEPA:
cerca de 30–40% são ANCA positivos, muitos são anti-MPO positivos
Então: ANCA negativo NÃO exclui Churg–Strauss.
Importante:
ANCA positivo costuma se associar mais a doença renal e neuropatia
ANCA negativo aparece mais em doença cardíaca e pulmonar eosinofílica
3) IgE total
Frequentemente elevada. Não é específico.
4) Avaliação pulmonar
TC de tórax - Pode mostrar: infiltrados pulmonares, opacidades migratórias, nódulos, vidro fosco
Espirometria: padrão obstrutivo compatível com asma
5) Avaliar órgãos-alvo
Depende do quadro:
Rim - creatinina, EAS, relação proteína/creatinina
Coração (muito importante) - ECG, troponina, BNP, ecocardiograma e ressonância cardíaca se necessário
Nervos - eletroneuromiografia
6) Biópsia (quando possível)
Pode confirmar. Achados: vasculite necrosante, infiltrado eosinofílico, granulomas
Locais: pele, nervo, músculo, pulmão
Mas uma biópsia negativa não exclui.
Diagnóstico diferencial importante
Síndrome hipereosinofílica
eosinofilia importante
pode não ter asma
investigar causas clonais
Vasculite por drogas
Ex: montelucaste (associação descrita) e alguns antibióticos
Parasitose
Strongyloides, helmintos
Aspergilose broncopulmonar alérgica
Fontes