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Espirometria - a interpretação

Considerações iniciais

A interpretação da espirometria fica muito mais fácil se você seguir uma sequência fixa. Algumas "regras mentais" ajudam bastante na prática.

A análise da curva de espirometria avalia o fluxo e o volume de ar nos pulmões para identificar se a respiração está normal ou se existem padrões de doenças pulmonares. O exame gera dois gráficos principais: a Curva Fluxo-Volume (que mostra a velocidade do ar) e a Curva Volume-Tempo (que mostra a duração do sopro). 


1. Critérios de Qualidade da Curva

Antes de olhar os resultados, a curva precisa ser tecnicamente aceitável: 

  • Pico definido: Início rápido e explosivo do sopro na curva Fluxo-Volume.
  • Duração: O sopro deve durar pelo menos 6 segundos (avaliado na curva Volume-Tempo).
  • Platô: A curva Volume-Tempo deve estabilizar no final, indicando esvaziamento completo.
  • Sem artefatos: Não pode haver tosses, hesitações ou fechamento precoce da garganta.

 

 

A análise visual sempre acompanha estes dados: 

  • CVF (Capacidade Vital Forçada): Total de ar exalado no sopro.
  • VEF1 (Volume Expiratório Forçado no 1º segundo): Quantidade de ar expelida no primeiro segundo.
  • Relação VEF1/CVF: Se estiver abaixo do Limite Inferior da Normalidade (geralmente < 70% ou 0,7), confirma o padrão obstrutivo. 

 

Antes de interpretar:

Curva fluxo-volume

  • início explosivo (bom esforço)
  • sem tosse no primeiro segundo
  • expiração prolongada (ideal ≥ 6 segundos em adultos)
  • sem término precoce

Se a técnica for ruim, os números podem enganar.

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CURVA EP.png

2) Olhe primeiro o VEF1/CVF (a relação)

A pergunta inicial:

VEF1/CVF está reduzido?

↓ VEF1/CVF → padrão obstrutivo

Pense:

  • Asma
  • DPOC
  • bronquiectasias
  • bronquiolites

Exemplo:

  • VEF1 = 1,8 L
  • CVF = 4 L

VEF1/CVF = 45%

➡️ Obstrução

VEF1/CVF normal ou alto → não é obstrução

Aí pense em:

  • normal
  • restrição
  • distúrbio misto

 

3) Depois olhe a CVF

CVF reduzida? Sim:

Pode ser:

Restrição

Exemplos:

  • fibrose pulmonar
  • doença neuromuscular
  • obesidade importante
  • derrame pleural

MAS: ⚠️ Espirometria não confirma restrição sozinha.

Precisa: → volumes pulmonares (CPT)

4. Os Três Principais Padrões das Curvas

  • Padrão Normal:
    • Fluxo-Volume: Formato triangular na expiração (subida reta até o pico e descida linear contínua).
    • Volume-Tempo: Subida rápida no primeiro segundo que se estabiliza suavemente em formato de "L" invertido. 
  • Padrão Obstrutivo (Asma ou DPOC):
    • Fluxo-Volume: Apresenta uma concavidade (uma "barriga para dentro") na linha de descida. Isso acontece porque o ar demora a sair das vias aéreas estreitadas.
    • Volume-Tempo: A curva sobe de forma muito lenta e demora para atingir o topo. 

 

  • Padrão Restritivo (Fibrose ou fraqueza muscular):
    • Fluxo-Volume: Tem o formato normal (triangular), porém a curva é miniatura (estreita e baixa), demonstrando que o pulmão expande pouco.
    • Volume-Tempo: Atinge o platô rapidamente, mas em volumes muito baixos de litros. 
Spirometry.png

Classifique a gravidade pelo VEF1

Nos obstrutivos:

VEF1 ≥ 80% leve

50–79% moderado

30–49% grave

<30% muito grave

(referência frequentemente usada em DPOC; pode variar conforme contexto)

 

Teste broncodilatador

Depois do broncodilatador. Pergunta:

Melhorou?

Resposta clássica:

Aumento do VEF1:

  • ≥ 12% e
  • ≥ 200 mL

→ resposta positiva

Sugere:

  • asma
  • componente reversível

Mas cuidado:

DPOC pode ter resposta positiva também. Não é: respondeu = asma" É um conjunto clínico.

 

Padrões clássicos

Asma

Normal entre crises ou:

  • VEF1 ↓
  • VEF1/CVF ↓
  • grande reversibilidade

Exemplo: Antes: VEF1 1,8 L. Depois: 2,2 L (+400 mL)

DPOC

  • VEF1 ↓
  • VEF1/CVF ↓
  • pouca reversibilidade

Fibrose pulmonar

  • CVF ↓
  • VEF1 ↓
  • relação normal ou aumentada

Exemplo:

VEF1 2,0 L, CVF 2,3 L. Relação 87% ➡️ Restrição provável

 Distúrbio misto (obstrução + restrição)

Achado:

  • VEF1/CVF ↓
  • CVF ↓

Exemplo:

VEF1 1,5, CVF 2,0. Relação 75% (baixa dependendo do limite)

Pensar:

  • DPOC + obesidade
  • DPOC + fibrose
  • bronquiectasia extensa

Confirmar com volumes.

 

Uma dica prática: nunca olhe só o VEF1

Erro comum:

"VEF1 baixo = obstrução"

Não necessariamente.

O VEF1 cai também em restrição ou esforço ruim

A relação VEF1/CVF é o primeiro filtro.

 

Curva fluxo-volume: dicas visuais

Obstrução:

"barriga" na fase expiratória

↓ fluxo médio

Restrição:

curva pequena, formato preservado

Obstrução de grandes vias aéreas:

achatamento da curva

Pode sugerir:

  • estenose traqueal
  • tumor
  • corpo estranho

Fontes

  • GRAHAM, B. L. et al. Standardization of Spirometry 2019 Update: An Official American Thoracic Society and European Respiratory Society Technical Statement. American Journal of Respiratory and Critical Care Medicine, New York, v. 200, n. 8, p. e70-e88, 2019. DOI: 10.1164/rccm.201908-1590ST. Disponível em: https://www.atsjournals.org/doi/10.1164/rccm.201908-1590ST
  • STANOJEVIC, S. et al. ERS/ATS Technical Standard on Interpretive Strategies for Routine Lung Function Tests. European Respiratory Journal, Sheffield, v. 60, n. 1, 2022. DOI: 10.1183/13993003.01499-2021. Disponível em: https://publications.ersnet.org/content/erj/60/1/2101499. .
  • PEREIRA, C. A. C. et al. Diretrizes para Testes de Função Pulmonar da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia. Jornal Brasileiro de Pneumologia, Brasília, Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia.
  • GLOBAL INITIATIVE FOR CHRONIC OBSTRUCTIVE LUNG DISEASE (GOLD). Global Strategy for Prevention, Diagnosis and Management of Chronic Obstructive Pulmonary Disease: 2025 Report. GOLD, 2025. Disponível em: https://goldcopd.org. Acesso em: 4 jul. 2026.
  • WEST, J. B.; LUTCHEN, K. R. West's Respiratory Physiology: The Essentials. 11. ed. Philadelphia: Wolters Kluwer, 2021.