ESCLEROSE SISTÊMICA - TRATAMENTiO
Considerações iniciais
A esclerose sistêmica (ES) é uma doença crônica do tecido conjuntivo caracterizada por manifestações ligadas à fibrose e disfunção vascular da pele e dos órgãos internos. Acredita-se que sua prevalência possa variar entre 30 e 300 indivíduos acometidos por milhão de pessoas adultas. Os critérios classificatórios propostos em 1980 pelo American College of Rheumatology (ACR) são eficientes em identificar os pacientes com doença bem definida,1 posteriormente classificados em forma clínica limitada e difusa.
No século XXI, com a proposição dos novos critérios para ES sine escleroderma, ES precoce e ES muito precoce. o espectro da doença foi consideravelmente aumentado, também permitindo o diagnóstico precoce de um número significativo de pacientes.
É importante que se tenha conhecimento da variada gama de manifestações cutâneas (fibrose e calcinose), vasculares (fenômeno de Raynaud e úlceras isquêmicas) e viscerais (destacando-se hipomotilidade esofágica e intestinal, refluxo gastroesofágico, pneumopatia intersticial, hipertensão pulmonar, crise renal esclerodérmica, miocardioesclerose e arritmia cardíaca) da ES. A capilaroscopia periungueal e os autoanticorpos específicos também são importantes instrumentos para diagnóstico e planejamento terapêutico do paciente esclerodérmico. Outro aspecto importante da ES é que seu tratamento está baseado em estratégias órgão-específicas, já que cada manifestação clínica pode precisar de uma medicação diferente e específica.
PELE
Tratamentos para o espessamento cutâneo na esclerose sistêmica
Doença ativa / progressiva
Metotrexato
Micofenolato de mofetila
Ciclofosfamida (casos graves)
Casos refratários selecionados
Rituximabe
Transplante autólogo de células-tronco hematopoéticas (centros especializados)
Tratamentos para a calcinose subcutânea na esclerose sistêmica
Tratamentos para o fenômeno de Raynaud na esclerose sistêmica
Medidas não farmacológicas (sempre iniciar)
Essas medidas reduzem crises: Evitar exposição ao frio, usar luvas térmicas frequentemente, parar tabagismo (forte vasoconstritor) e evitar drogas vasoconstritoras: descongestionantes, ergotamínicos, anfetaminas. Controle de estresse.
Essas medidas isoladas raramente são suficientes na esclerose sistêmica.
- Bloqueadores dos canais de cálcio podem reduzir a frequência e a gravidade dos ataques isquêmicos em pacientes com fenômeno de Raynaud secundário à esclerose sistêmica. Devem ser as drogas de primeira linha no tratamento do fenômeno de Raynaud da esclerose sistêmica.
- A iloprosta endovenosa diminui o número de ataques isquêmicos e sua gravidade. A dose baixa é tão eficaz quanto a alta dose em pacientes com fenômeno de Raynaud secundário à esclerose sistêmica.
- O uso da sildenafila de liberação prolongada em pacientes com fenômeno de Raynaud secundário à esclerose sistêmica limitada reduz a frequência dos ataques.
1️⃣ Primeira linha farmacológica
Bloqueadores de canal de cálcio (primeira escolha)
Nifedipina (mais usada) 30–60 mg/dia (liberação prolongada)
Anlodipino 5–10 mg/dia
Efeito
Reduz frequência e intensidade das crises.
Limitações:
- hipotensão
- edema
- cefaleia
2️⃣ Segunda linha (quando resposta inadequada)
Inibidores de PDE5. Muito eficazes na esclerodermia.
Sildenafil 20 mg 2–3x/dia
Tadalafil
Benefícios:
melhora fluxo digital
ajuda cicatrização de úlceras
Bloqueador de receptor de endotelina (principal para úlceras)
Bosentan
Indicação clássica:
prevenção de novas úlceras digitais
3️⃣Casos graves / isquemia crítica
Quando há dor intensa, úlceras ou risco de necrose digital.
Prostanoides intravenosos
Iloprost (principal)
Epoprostenol
Efeito:
potente vasodilatação
melhora fluxo capilar
Normalmente infusão 3–5 dias.
Outras opções úteis
Podem ser associadas:
Losartan
Fluoxetina
Nitroglicerina tópica em dedos
4️⃣ Casos refratários
Quando há isquemia persistente:
Simpatectomia digital ou
Bloqueio simpático
Pode reduzir crises e dor.
⚠️ Sinais de alerta (urgência)
Em pacientes com esclerodermia:
➡️ Nesses casos prostanoide IV deve ser considerado rapidamente.
✅ Estratégia prática muito usada
Nifedipina ou anlodipino
Associar sildenafil
Se úlceras → bosentan
Isquemia grave → iloprost IV
Tratamentos para as úlceras isquêmicas na esclerose sistêmica
- Em pacientes com esclerose sistêmica, a iloprosta endovenosa aumenta o número de úlceras digitais ativas cicatrizadas. A baixa dose é tão eficaz quanto a alta dose, e não existe diferença na redução do número de lesões digitais com o uso de iloprost endovenoso ou nifedipina.
- O alprostadil endovenoso pode ser uma opção para o tratamento de úlceras isquêmicas graves refratárias ao tratamento convencional
- Em pacientes com esclerose sistêmica, a bosentana diminui o aparecimento de novas úlceras digitais.
- O uso da sildenafila pode contribuir para a redução do número de úlceras digitais.
Tratamentos de manutenção para se evitar a recorrência de úlceras isquêmicas na esclerose sistêmica
Como tratamento da prevenção da recorrência de novas úlceras isquêmicas, recomenda-se os antagonistas dos receptores da endotelina, em particular a bosentana.
ARTICULAÇÕES
A dor articular e a artrite na Esclerose Sistêmica são relativamente comuns e podem ocorrer por vários mecanismos:
sinovite inflamatória verdadeira
fibrose periarticular
tenossinovite
contraturas e retrações cutâneas
Por isso o tratamento costuma ser escalonado conforme intensidade e presença de inflamação articular verdadeira.
1️⃣ Analgésicos simples (primeira etapa)
Para dor leve sem sinovite evidente.
Paracetamol
Dipirona
São seguros e frequentemente usados como base.
2️⃣ Anti-inflamatórios (AINEs)
Se houver inflamação articular ou rigidez significativa.
Naproxeno
Ibuprofeno
Celecoxibe
⚠️ Usar com cautela porque pacientes com esclerodermia podem ter:
comprometimento renal
hipertensão
risco gastrointestinal.
3️⃣ Corticoide em baixa dose
Quando há sinovite inflamatória moderada.
Prednisona
Geralmente ≤10 mg/dia.
⚠️ Muito importante:
doses altas aumentam risco de Crise Renal da Esclerose Sistêmica, portanto devem ser evitadas.
4️⃣ DMARDs (quando há artrite persistente)
Se houver quadro semelhante à artrite inflamatória.
Opções mais usadas
Metotrexato (frequentemente primeira escolha)
Hidroxicloroquina
Leflunomida
O metotrexato é bastante utilizado porque também pode ajudar na fibrose cutânea inicial.
5️⃣ Casos mais inflamatórios ou sobreposição com artrite reumatoide
Pode ser necessário:
Tocilizumabe
Rituximabe
Esses biológicos são usados em casos selecionados.
6️⃣ Medidas não medicamentosas
Muito importantes na esclerodermia:
fisioterapia de mãos
exercícios de mobilidade articular
terapia ocupacional
órteses para prevenir contraturas
✅ Estratégia prática comum
Analgésico ± AINE
Prednisona baixa dose se sinovite
Metotrexato ou hidroxicloroquina se persistente
💡 Um ponto importante: em muitos pacientes a dor na mão não é artrite verdadeira, mas tenossinovite e fibrose periarticular, o que muda bastante a resposta ao tratamento.
1️⃣ Analgésicos simples
Paracetamol
500–750 mg a cada 6–8 h
Dose máxima habitual: 3–4 g/dia
Dipirona
500–1000 mg a cada 6–8 h
Máximo: 4 g/dia
2️⃣ Anti-inflamatórios (AINEs)
Naproxeno
250–500 mg 2x/dia
Ibuprofeno
400–600 mg 3–4x/dia
Celecoxibe
100–200 mg 1–2x/dia
⚠️ Monitorar:
função renal
pressão arterial
sintomas gástricos
3️⃣ Corticoide (quando há sinovite)
Prednisona
5–10 mg/dia
⚠️ Evitar >15 mg/dia devido risco de Crise Renal da Esclerose Sistêmica.
4️⃣ DMARDs (se artrite persistente)
4.1. Metotrexato (muito utilizado)
Metotrexato 10–15 mg 1x por semana inicialmente
pode aumentar até 20–25 mg/semana
Como costuma ser o escalonamento
10 mg/semana (inicial) após 4–8 semanas → 15 mg/semana
após mais 4–8 semanas → 20 mg/semana
dose máxima habitual: 20–25 mg/semana
Associar:
Ácido Fólico 5 mg 1x/semana (ou 1 mg/dia exceto no dia do MTX)
4.2. Hidroxicloroquina
200–400 mg/dia
dose máxima segura: ≤ 5 mg/kg/dia
4.3. Leflunomida
20 mg/dia. Alguns iniciam com 10 mg/dia se tolerância ruim
5️⃣ Biológicos (casos selecionados)
5.1. Tocilizumabe
162 mg SC semanal
ou 8 mg/kg IV mensal
5.2. Rituximabe
1000 mg IV repetir após 14 dias
novo ciclo geralmente a cada 6 meses
TRATO GASTROINTESTINAL
Tratamentos para a hipomotilidade esofágica e intestinal na esclerose sistêmica
Os agentes pró-cinéticos (metoclopramida, domperidona, octreotide) devem ser utilizados para melhorar os sintomas relacionados com a dismotilidade gastrointestinal.
Tratamentos s para o refluxo gastroesofágico e suas complicações na esclerose sistêmica
Os inibidores de bomba de próton melhoram a esofagite de refluxo e os sintomas de refluxo gastroesofágico, e consequentemente as complicações locais ou respiratórias. Nos casos não responsivos ao tratamento clínico, a cirurgia pode trazer benefício.
Tratamentos para a síndrome de má absorção na esclerose sistêmica
O uso de procinéticos, como o octreotide, melhora a gravidade dos sintomas relacionados à motilidade intestinal.
Antibióticos em esquema de rotação podem ser utilizados para erradicar a proliferação bacteriana.
Suporte nutricional (nutrição parenteral) pode ser benéfico nos casos mais graves de desnutrição.
Esofágico / refluxo
IBP em altas doses
Medidas posturais e dieta
Gastroparesia
Metoclopramida
Domperidona
Supercrescimento bacteriano
Rifaximina
Ciprofloxacino
Metronidazol
PULMÃO
🔹 Doença pulmonar intersticial (DPI)
A pneumopatia intersticial associada à esclerose sistêmica tem benefício no tratamento com ciclofosfamida. O micofenolato de mofetil e o rituximabe podem representar alternativas para o tratamento nos casos não responsivos à ciclofosfamida.
Primeira linha:
Micofenolato de mofetila
Alternativas:
Ciclofosfamida
Azatioprina
Casos progressivos:
Nintedanibe (antifibrótico)
Rituximabe
🔹 Hipertensão arterial pulmonar (HAP)
O tratamento específico da HAP baseia-se no uso de três grupos de vasodilatadores que agem em três vias envolvidas na fisiopatologia da doença:
- os análogos da prostaciclina prostanoides (epoprostenol, iloprosta),
- os antagonistas dos receptores da endotelina (bosentana e ambrisentan) e
- os inibidores da fosfodiesterese-5 (sildenafila e tadalafila)
📌 Confirmar com cateterismo direito
RIM - CRISE RENAL ESCLERODÉRMICA
Tratamentos para o acometimento renal na crise esclerodérmica
- Os pacientes com esclerose sistêmica e crise renal devem ser tratados com inibidor da ECA em altas doses;
- diálise e transplante renal são reservados para os casos que não recuperam a função renal precocemente.
🚨 Emergência médica
IECA imediatamente
Captopril (droga de escolha)
Não suspender IECA mesmo com piora inicial da creatinina
Diálise se necessário
⚠️ Evitar corticoide > 15 mg/dia (fator de risco importante)
CORAÇÃO
Tratamentos para o acometimento cardíaco na esclerose sistêmica
A frequência de doença cardíaca em pacientes com esclerose sistêmica tende a ser elevada (doença miocárdica, coronariana e arrítmica), sendo indicado o tratamento específico, como bloqueador de canal de cálcio (nifedipina, nicardipina), inibidores da enzima conversora de angiotensina (captopril), amiodarona, carvedilol e revascularização do miocárdio.
Fontes
https://www.scielo.br/j/rbr/a/FbWHs3cjrhMsnq47pwDbVnP/?lang=pt#:~:text=O%20metotrexato%20%C3%A9%20a%20primeira,responsivos%20ao%20tratamento%20com%20metotrexato.
https://www.nature.com/articles/s41584-023-00909-5#:~:text=Treatment%20in%20SSc%2C%20including%20early,%2C%20cyclophosphamide%2C%20rituximab%20and%20tocilizumab.
https://advancesinrheumatology.biomedcentral.com/articles/10.1186/s42358-024-00392-w