Beta-bloqueadores na Hipertensão Portal e DPOC concomitante
Considerações iniciais
Essa é uma situação clínica delicada porque há um conflito terapêutico, a Hipertensão portal com varizes esofágicas tem benefício com uso de beta-bloqueador não seletivo (BBNS) para reduzir risco de sangramento, porém a DPOC grave existe um risco maior de broncoespasmo com beta-bloqueio. A escolha depende da gravidade do DPOC e da necessidade de profilaxia das varizes.
1) Beta-bloqueadores usados para varizes esofágicas
Os preferidos são os não seletivos:
Eles bloqueiam:
β1 → reduz débito cardíaco
β2 → reduz vasodilatação esplâncnica → diminui fluxo portal
2) No DPOC grave, o problema é o β2
Os BBNS podem piorar VEF1, aumentar broncoespasmo e piorar dispneia, principalmente em DPOC grave que tenham componente asmático e exacerbações frequentes.
3) Se realmente precisa de beta-bloqueador: qual escolher?
Entre os BBNS, muitos especialistas preferem:
Carvedilol
Vantagens:
⚠️ Porém também bloqueia β2 e pode causar hipotensão. Por isso, na DPOC grave, deve ser usado com muita cautela.
4) E os beta-1 seletivos?
Exemplos:
Bisoprolol
Metoprolol
Eles têm menor efeito nos brônquios. Mas: não são bons para prevenção de sangramento de varizes, porque não reduzem adequadamente o fluxo portal esplâncnico. Ou seja, podem ser seguros para coração/pressão, mas não substituem BBNS para varizes.
5) Alternativa quando o DPOC é muito grave
Se há VEF1 muito reduzido, broncoespasmo severo e uso frequente de broncodilatador, com intolerância ao BBNS. A opção costuma ser: ➡️ ligadura elástica endoscópica das varizes (LEVE). É uma estratégia aceita para profilaxia de sangramento quando BBNS é contraindicado.
Resumo prático: DPOC com Hipertensão portal
→ considerar carvedilol/propranolol/nadolol com monitorização
→ evitar BBNS se risco respiratório alto
→ preferir ligadura endoscópica
Como classificar a gravidade do DPOC nesses casos
A gravidade do DPOC é definida principalmente pela espirometria (VEF1 pós-broncodilatador), mas hoje também se considera sintomas e risco de exacerbações.
1) Primeiro confirmar DPOC na espirometria
Critério diagnóstico:
VEF1/CVF pós-broncodilatador < 0,70
Depois olha o VEF1 (% do previsto).
Classificação espirométrica (GOLD)
GOLD 1 — DPOC leve
VEF1 ≥ 80% do previsto
Exemplo:
VEF1 = 85%. Geralmente pouca limitação e pode ter poucos sintomas
GOLD 2 — DPOC moderado
VEF1 entre 50–79%
Exemplo:
VEF1 = 65% - É o grupo mais frequente.
GOLD 3 — DPOC grave
VEF1 entre 30–49%
Exemplo:
VEF1 = 40%
Mais provável: dispneia importante, limitação funcional e exacerbações
GOLD 4 — DPOC muito grave
VEF1 < 30%
ou às vezes: VEF1 <50% + insuficiência respiratória crônica
Observação : Mas o VEF1 sozinho não conta toda a história
Um paciente com: VEF1 55%, mas várias internações por exacerbação pode ser clinicamente mais grave que alguém com VEF1 40% estável. Por isso o GOLD atual usa também:
Exemplo : Para a situação com varizes esofágicas + beta-bloqueador com DPOC com:
VEF1 <50%, dispneia importante (mMRC ≥2-3), exacerbação recente e sibilância/broncoespasmo ativo, com necessidade frequente de broncodilatador ➡️ Nesses casos o risco de BBNS é maior.
Fontes