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Candidúria - manejo

Considerações iniciais

O manejo da candidúria (presença de Candida na urina) é um desafio clínico porque, na grande maioria das vezes, ela representa apenas colonização ou contaminação da amostra, e não uma infecção ativa que precise de antifúngicos. O uso indiscriminado de remédios aqui gera resistência medicamentosa desnecessária.

 

Quando suspeitar de infecção invasiva?

Maior preocupação se:

  • febre persistente;
  • imunossupressão;
  • candidemia;
  • obstrução urinária;
  • massa fúngica (“fungus ball”).

 

Passo 1: Confirmar e Isolar Fatores de Confusão

Antes de prescrever qualquer antifúngico, a primeira conduta nunca é medicar, mas sim:

a Avaliar Sintomas: O paciente tem disúria, polaciúria, febre ou dor lombar?

b Checar a Coleta: Se a amostra foi de urocultura comum, o ideal é repetir com técnica asséptica estrita.

c Manejo do Cateter (Se houver sonda vesical de demora): Este é o ponto mais importante. A Candida adora formar biofilme no plástico da sonda. A conduta inicial é trocar ou retirar a sonda e colher uma nova urocultura através da nova sonda (ou micção espontânea se foi retirada). Em até 40% dos casos, a candidúria desaparece apenas com a troca do cateter.

 

Passo 2: Estratificação e Conduta (Quem tratar?)

1. Pacientes Assintomáticos (A imensa maioria)

Se o paciente não tem sintomas urinários, febre e não pertence a nenhum grupo de risco:

  • Conduta: NÃO TRATAR.
  • Apenas elimine os fatores predisponentes se possível (interromper antibióticos de amplo espectro se já puder, controlar rigorosamente o diabetes/glicemia e retirar sondas).

A presença de Candiduria nem sempre significa infecção verdadeira. Muitas vezes representa apenas:

  • colonização,
  • contaminação,
  • ou uso de sonda vesical.

Por isso, o manejo depende principalmente de:

  • sintomas,
  • fatores de risco,
  • gravidade,
  • presença de procedimento urológico.

 

PASSO MAIS IMPORTANTE

Diferenciar:

Candidúria assintomática - Geralmente NÃO tratar

Cistite fúngica sintomática - Tratar

Pielonefrite fúngica - Tratar

Alto risco (neutropenia, urológico, RN) - Geralmente tratar

 

1. Candidúria ASSINTOMÁTICA

Na maioria dos casos:

→ NÃO tratar antifúngico. Especialmente em:

  • idosos,
  • diabéticos,
  • pacientes sondados,
  • internados.

 

Conduta principal

  • trocar ou retirar sonda vesical;
  • repetir urocultura se necessário;
  • corrigir fatores predisponentes:
    • antibióticos,
    • hiperglicemia,
    • obstrução urinária.

QUANDO tratar candidúria assintomática?

Indicações clássicas:

1. Neutropenia

2. Recém-nascido baixo peso

3. Procedimento urológico programado

(ex.: RTU, duplo J, manipulação urinária)

Porque há risco de candidemia.

 

2. CISTITE FÚNGICA SINTOMÁTICA

Sintomas:

  • disúria,
  • urgência,
  • polaciúria,
  • dor suprapúbica.

Tratamento preferido: Fluconazol

Dose habitual: 200 mg/dia VO por 14 dias.

Porque: atinge alta concentração urinária.

 

3. PIELONEFRITE FÚNGICA

Mais grave. Sintomas:

  • febre,
  • dor lombar,
  • sepse,
  • obstrução,
  • fungus ball.

 

Manejo terapeutico 

Por que o fluconazol é preferido?

O Fluconazole:

  • é eliminado principalmente pelos rins;
  • alcança altas concentrações na urina;
  • funciona muito bem para Candida sensível no trato urinário.
  • fluconazol 200–400 mg/dia;
  • avaliar imagem:
    • USG,
    • TC;
  • excluir obstrução;
  • remover dispositivos urinários se possível.

Equinocandinas e outros azólicos

Os azólicos como Voriconazole e Posaconazole geralmente não são boas escolhas para candidúria, e as equinocandinas também costumam ser evitadas na candidúria isolada. O motivo principal é a baixa concentração urinária dessas drogas.Exemplo: micafungina, anidulafungina. Apesar de ótimas para candidemia → NÃO são boas para candidúria, porque atingem pouca concentração urinária.

 

1. Voriconazol

Problema:

O voriconazol sofre metabolização hepática importante, portanto, pouca droga ativa chega à urina.

Então pode funcionar em tecidos renais, mas não é bom para infecção localizada no lúmen urinário/cistite.

Em geral:

→ NÃO é recomendado para candidúria.

 

2. Posaconazol

Mesmo problema baixa excreção urinária; concentração urinária inadequada → Também não é boa escolha para candidúria.

MAS existe exceção importante: Infecção renal hematogênica

Se houver:

  • candidemia,
  • abscessos renais,
  • pielonefrite hematogênica,

as equinocandinas podem funcionar porque: atingem bem o tecido renal, mesmo sem alta concentração urinária.

 

Espécies resistentes ao fluconazol -   Problema das Espécies Não-Albicans (Candida glabrata e Candida krusei)

Candida glabrata

Pode responder mal. Opções:

  • anfotericina B;
  • flucitosina (menos disponível).

Candida krusei

→ resistente ao fluconazol.Se o resultado do laboratório voltar mostrando que o fungo é uma Candida glabrata ou Candida krusei, o tratamento com Fluconazol costuma falhar porque essas espécies possuem resistência intrínseca ou muito elevada aos azólicos.

Aqui há um grande problema terapêutico: as Equinocandinas (Micafungina, Anidulafungina, Caspofungina), que usamos para infecções sistêmicas, NÃO excretam bem na urina. Elas são péssimas para tratar candidúria.

Opções para Espécies Resistentes na Urina:

  1. Anfotericina B Desoxicolato (Convencional): Administrada por via intravenosa (0,3 a 0,6 mg/kg/dia) por 1 a 7 dias. Ela tem excelente excreção renal e limpa o trato urinário. Atenção: Anfotericina lipossomal penetra mal no parênquima urinário e na urina; tem que ser a convencional.
  2. Flucitosina: Excelente excreção urinária, mas é uma medicação raramente disponível no Brasil.
  3. Irigação Vesical com Anfotericina B: Em casos puramente de cistite (infecção baixa) por espécies resistentes onde o paciente tem contraindicação renal para Anfotericina IV, pode-se fazer lavagem local com sonda de 3 vias (Anfotericina B 50 mg/L  em água destilada estéril por 5 dias). É desconfortável e tem alta taxa de recidiva, mas funciona localmente.

FONTES

PAPPAS, Peter G. et al. Clinical Practice Guideline for the Management of Candidiasis: 2016 Update by the Infectious Diseases Society of America. Clinical Infectious Diseases, [S. l.], v. 62, n. 4, p. e1-e50, feb. 2016.

FISHER, J. F. et al. Candida urinary tract infections: treatment. In: CORNELY, Oliver A. et al (org.). ESCMID guideline for the diagnosis and management of Candida diseases. [S. l.]: ESCMID, 2012. (Suplemento de atualização mantido em vigência).

FISHER, John F.; KAUFMAN, Carol A. Candida Urinalysis: To Treat or Not to Treat. Current Fungal Infection Reports, [S. l.], v. 12, n. 4, p. 195-202, nov. 2018.

BORGES, João Silva et al. Micoses Oportunistas e Infecções do Trato Urinário por Fungos. In: TAVARES, Walter; MARINHO, Luiz Alberto (org.). Rotinas em Infectologia. 4. ed. São Paulo: Atheneu, 2021. cap. 45, p. 389-398.