Manejo de câncer de próstata avançado
Considerações iniciais
Em um paciente com lesão prostática suspeita + PSA extremamente elevado + lesão osteoblástica na coluna, o raciocínio deve ser feito como forte suspeita de câncer de próstata metastático, mas é importante confirmar o diagnóstico e, principalmente, avaliar imediatamente se existe risco neurológico pela lesão vertebral.
A sequência prática pode ser organizada assim:
1. Primeiro: avaliar se há urgência
Antes mesmo de completar todo o estadiamento, procurar sinais de compressão medular/cauda equina:
Se houver déficit neurológico ou suspeita de compressão medular → RM de coluna com urgência e avaliação neurocirúrgica/radioterápica. Uma metástase vertebral de câncer de próstata costuma ser osteoblástica, embora lesões mistas também possam ocorrer.
2. Confirmar e caracterizar a doença prostática
Solicitaria inicialmente:
Laboratório
A fosfatase alcalina é particularmente interessante quando há grande carga de doença óssea.
O PSA muito elevado aumenta enormemente a suspeita, mas PSA isoladamente não estabelece o diagnóstico histológico.
3. Avaliar a próstata por imagem
Se ainda não foi feita: RM multiparamétrica da próstata
Ela permite avaliar:
Entretanto, neste cenário, a RM da próstata não deve ser encarada isoladamente. O paciente precisa de estadiamento sistêmico.
4. Estadiar o corpo inteiro
Atualmente, quando disponível, o exame de maior rendimento é: PET/CT com PSMA
Ele pode demonstrar:
O PSMA-PET vem sendo cada vez mais incorporado ao estadiamento do câncer de próstata de alto risco.
Se PET-PSMA não estiver disponível, uma alternativa convencional é: TC de tórax/abdome/pelve + cintilografia óssea.
No caso de uma lesão vertebral específica, entretanto, a RM da coluna é muito mais importante para avaliar comprometimento epidural, canal vertebral e medula.
5. Precisa fazer biópsia da próstata?
Na maioria dos casos, sim. A confirmação histológica normalmente é feita por:
biópsia prostática → anatomopatológico + Gleason/ISUP.
Idealmente, quando há uma lesão identificada na RM: biópsia dirigida à lesão + biópsia sistemática.
O resultado fornecerá:
Mas existe uma situação importante. Se o paciente apresenta:
PSA extremamente elevado + lesão prostática altamente suspeita + múltiplas metástases típicas de câncer de próstata a probabilidade clínica pode ser muito alta. Ainda assim, se for possível obter tecido com segurança, a confirmação histológica é geralmente desejável antes de estabelecer tratamento oncológico definitivo, especialmente porque existem diagnósticos diferenciais.
6. E se a lesão óssea for a única evidência de metástase?
Uma lesão osteoblástica na coluna é sugestiva, mas não significa automaticamente metástase de próstata.
Diferenciais incluem:
Se a imagem for atípica ou houver dúvida, pode ser necessário:
RM → eventualmente biópsia da lesão óssea.
Se houver doença disseminada com várias lesões ósseas típicas + tumor prostático evidente + PSA muito elevado, geralmente a biópsia da coluna não é a primeira opção.
7. Determinar o estágio
Se houver metástase óssea:
M1b = metástase óssea
Por exemplo: Próstata → coluna vertebral→ já caracteriza doença metastática.
O raciocínio passa de: "câncer de próstata localizado?" para: "câncer de próstata metastático hormônio-sensível", caso o paciente ainda não tenha recebido tratamento hormonal.
8. Antes de iniciar tratamento, verificar testosterona
Isso é muito importante.
Se nunca recebeu terapia hormonal: testosterona estará geralmente em nível não castrado. Portanto, seria: câncer de próstata metastático hormônio-sensível (mHSPC).
Se já recebeu bloqueio hormonal e a doença está progredindo apesar de testosterona adequadamente suprimida: → pensar em câncer de próstata resistente à castração (mCRPC).
9. Tratamento sistêmico: não é simplesmente "dar bloqueio hormonal"
Se for confirmado câncer de próstata metastático hormônio-sensível, a base é:
Terapia de privação androgênica — ADT
Pode ser feita com:
Mas atualmente, para muitos pacientes aptos, ADT isolada não é mais a estratégia sistêmica preferencial. A ESMO 2026 recomenda combinação de ADT com terapia adicional em doença metastática, incluindo inibidores da via do receptor androgênico ou docetaxel conforme características do paciente.
10. Escolher a intensificação
Dependendo de idade, performance status, comorbidades, volume de doença e preferência do paciente, podem ser utilizados:
ADT + abiraterona + prednisona ou
ADT + enzalutamida ou
ADT + apalutamida ou
ADT + darolutamida + docetaxel
ou outros esquemas baseados em características clínicas e disponibilidade.
A escolha não deve ser feita apenas olhando o PSA.
É necessário avaliar:
A literatura mais recente também mostra expansão das estratégias combinadas/triplas em pacientes selecionados.
A escolha entre ADT + abiraterona, enzalutamida, apalutamida ou docetaxel não deve ser feita apenas pelo PSA. Em 2026, o ponto central é caracterizar volume da doença, apresentação de novo vs. recorrência, estado clínico e comorbidades. As diretrizes atuais enfatizam tratamento combinado e individualizado para doença metastática hormônio-sensível.
Confirmar que estamos diante de mHSPC
Se o paciente tem: adenocarcinoma de próstata + metástase óssea/linfonodal/visceral + testosterona não castrada → câncer de próstata metastático hormônio-sensível (mHSPC).
Nesse cenário, para um paciente que pode receber tratamento intensificado, a discussão normalmente é:
ADT + um agente hormonal de nova geração (ARPI)
ou, em pacientes selecionados: ADT + docetaxel + ARPI.
ADT isolada fica reservada para determinadas situações, como fragilidade importante, contraindicações ou expectativa de benefício muito limitada.
Quando penso em ABIRATERONA?
ADT + abiraterona + prednisona
A abiraterona bloqueia a síntese de andrógenos através da inibição da CYP17.
Eu consideraria particularmente quando:
Cuidado com:
A abiraterona é administrada com prednisona/prednisolona, justamente porque o bloqueio da CYP17 provoca aumento de mineralocorticoides.
Um ponto interessante: os dados do STAMPEDE demonstram benefício de sobrevida sustentado da adição de abiraterona à ADT.
Portanto:
Paciente com doença metastática + hipertensão grave mal controlada + insuficiência cardíaca → eu teria bastante cautela com abiraterona.
Quando penso em ENZALUTAMIDA?
ADT + enzalutamida
É uma opção muito importante quando se deseja evitar:
A enzalutamida bloqueia diretamente o receptor de andrógeno.
Pode ser particularmente interessante em:
Cuidados:
Portanto:
idoso polimedicado + doença cardiovascular significativa → enzalutamida pode ser uma alternativa mais conveniente que abiraterona em determinadas situações, mas é preciso analisar interações e risco de quedas/cognição individualmente.
E APALUTAMIDA?
ADT + apalutamida
A lógica é semelhante à enzalutamida:
bloqueio potente do receptor de andrógeno.
É uma opção particularmente útil quando:
Principais questões práticas:
Por isso, se eu estiver diante de um paciente com doença óssea extensa e alto risco de queda/fratura, a avaliação da saúde óssea ganha ainda mais importância.
Quando escolher DOCETAXEL?
Aqui está uma das decisões mais importantes.
O docetaxel é diferente dos três anteriores porque é quimioterapia.
Eu penso mais fortemente nele quando existe:
DOENÇA DE ALTO VOLUME
Especialmente:
Análises individuais dos estudos sugerem maior benefício do docetaxel em pacientes com doença de maior volume e pior prognóstico, enquanto o benefício é muito menos evidente em doença metastática de baixo volume, particularmente recorrente/metacrônica.
Então o docetaxel é "melhor" que os hormonais?
Não é correto colocar dessa maneira. A questão atualmente é mais: Qual paciente precisa de quimioterapia upfront? e não: "Qual medicamento é o mais potente?"
Os ARPI + ADT demonstraram benefício de sobrevida em diferentes grupos de pacientes. O docetaxel tem papel particularmente relevante em determinados pacientes com doença de grande volume e bom estado funcional.
E quando usar TRIPLA TERAPIA?
Em alguns pacientes:
ADT + docetaxel + ARPI
pode ser considerada.
Exemplos de estratégia estudada incluem:
ADT + docetaxel + darolutamida e
ADT + docetaxel + abiraterona.
O benefício é particularmente relevante na discussão de pacientes com doença metastática de novo e alta carga tumoral, desde que tenham condição clínica para receber quimioterapia.
O estudo PEACE-1, por exemplo, mostrou benefício da adição de abiraterona à ADT + docetaxel em doença metastática de novo, com aumento de toxicidade, principalmente hipertensão.
Um jeito prático de decidir
Eu usaria este algoritmo:
A. Paciente frágil / muitas comorbidades
ADT isolada ou ADT + ARPI, dependendo do caso.
↓
B. Paciente fit + doença metastática de baixo volume
Geralmente:
ADT + ARPI
↓
Escolher entre:
abiraterona
enzalutamida
apalutamida
conforme comorbidades, interações e perfil de toxicidade.
↓
C. Paciente fit + doença metastática de alto volume
Considerar:
ADT + ARPI + docetaxel
ou
ADT + docetaxel
dependendo do contexto, acesso e características individuais.
As evidências atuais sustentam uma abordagem mais seletiva do docetaxel, em vez de administrá-lo indiscriminadamente a todos os pacientes.
E a metástase óssea?
Aqui existem duas questões diferentes:
A. Tratamento do câncer sistêmico
O tratamento hormonal/sistêmico reduz a atividade da doença óssea.
B. Tratamento da lesão óssea específica
Se houver:
pode ser necessário:
radioterapia paliativa/localizada, eventualmente cirurgia ou estabilização.
A radioterapia é uma ferramenta importante para controle da dor e de complicações das metástases ósseas.
Proteção óssea
É necessário avaliar:
Em determinadas situações podem ser utilizados:
denosumabe ou ácido zoledrônico, particularmente para prevenção de eventos relacionados ao esqueleto em doença metastática óssea.
Mas há uma diferença importante: a dose/esquema para prevenção de eventos ósseos por metástase não é simplesmente o mesmo tratamento utilizado para osteoporose induzida por ADT.
Também é importante avaliação odontológica quando se considera terapia antirreabsortiva, devido ao risco de osteonecrose de mandíbula.
Fazer investigação molecular
Em câncer de próstata metastático, atualmente vale considerar avaliação molecular/genética, principalmente:
Genes de reparo homólogo
Além disso:
Isso pode posteriormente influenciar a utilização de inibidores de PARP ou outras terapias dirigidas.
A ESMO destaca justamente a expansão das estratégias baseadas em alterações moleculares e PARP inhibitors na doença avançada.
Fontes
Fizazi K, Attard G, Azad AA, et al. Advanced and metastatic prostate cancer: ESMO Clinical Practice Guideline for diagnosis, treatment and follow-up. Ann Oncol. 2026;37(5):590-607. doi:10.1016/j.annonc.2026.01.015.
European Association of Urology (EAU). EAU Guidelines on Prostate Cancer: Treatment. 2026.
Fizazi K, Tran N, Fein L, et al.; LATITUDE Investigators. Abiraterone plus Prednisone in Metastatic, Castration-Sensitive Prostate Cancer. N Engl J Med. 2017;377(4):352-360. doi:10.1056/NEJMoa1704174.
James ND, de Bono JS, Spears MR, et al.; STAMPEDE Investigators. Abiraterone for Prostate Cancer Not Previously Treated with Hormone Therapy. N Engl J Med. 2017;377:338-351. doi:10.1056/NEJMoa1702900.
Davis ID, Martin AJ, Stockler MR, et al.; ENZAMET Trial Investigators. Enzalutamide with Standard First-Line Therapy in Metastatic Prostate Cancer. N Engl J Med. 2019;381(2):121-131. doi:10.1056/NEJMoa1903835.
Chi KN, Agarwal N, Bjartell A, et al.; TITAN Investigators. Apalutamide for Metastatic, Castration-Sensitive Prostate Cancer. N Engl J Med. 2019;381(1):13-24. doi:10.1056/NEJMoa1903307.
Sweeney CJ, Chen YH, Carducci M, et al. Chemohormonal Therapy in Metastatic Hormone-Sensitive Prostate Cancer. N Engl J Med. 2015;373:737-746. doi:10.1056/NEJMoa1503747.
Smith MR, Hussain M, Saad F, et al.; ARASENS Trial Investigators. Darolutamide and Survival in Metastatic, Hormone-Sensitive Prostate Cancer. N Engl J Med. 2022;386(12):1132-1142. doi:10.1056/NEJMoa2119115.
Fizazi K, Foulon S, Carles J, et al.; PEACE-1 Investigators. Abiraterone plus prednisone added to androgen deprivation therapy and docetaxel in de novo metastatic castration-sensitive prostate cancer (PEACE-1). Lancet. 2022;399(10336):1695-1707. doi:10.1016/S0140-6736(22)00367-1.
Smith MR, et al. Darolutamide Plus Androgen-Deprivation Therapy and Docetaxel in Metastatic Hormone-Sensitive Prostate Cancer by Disease Volume and Risk Subgroups in the Phase III ARASENS Trial. J Clin Oncol. 2023.