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Câncer renal em adulto jovem - manejo

Considerações iniciais

Em um paciente jovem  com massa renal, o manejo deve ser rápido, multidisciplinar e individualizado, porque as hipóteses diagnósticas e as decisões terapêuticas diferem do paciente idoso. 

 

1. Confirmação diagnóstica

Antes de definir tratamento, é obrigatório confirmar histologia.

Principais hipóteses em jovens:

  • Carcinoma de células renais (CCR)
    • Especial atenção para:
      • CCR associado a translocações TFE3/TFEB (Xp11) – típico em jovens
  • Sarcoma renal
  • Tumor de Wilms do adulto (raro, mas possível)
  • Linfoma renal primário
  • Metástase renal de outro tumor primário
  • Tumores germinativos extragonadais 
  • Tumores hereditários

-- Von Hippel–Lindau

-- Birt-Hogg-Dubé

-- RCC papilar hereditário

  • Tumores benignos (oncocitoma, AML pobre em gordura)

 

Conduta:

Papel da biópsia renal (mais importante no jovem)

Quando indicar biópsia antes da cirurgia:

✔️ Massa pequena (≤4 cm)
✔️ Achados atípicos
✔️ Suspeita de tumor benigno
✔️ Planejamento de cirurgia poupadora

 

Quando pode ir direto para cirurgia?

 - Lesão sólida típica

- maior que 4 cm

- Achados clássicos de malignidade

⚠️ Mesmo assim, biópsia é cada vez mais considerada em jovens.

 

Tratamento cirúrgico (pilar do manejo)

  • Biópsia percutânea da massa renal ou
  • Biópsia da lesão metastática, ex. óssea

👉 Em paciente metastático jovem, NÃO indicar nefrectomia sem histologia prévia.

 

 

Se a histologia NÃO for CCR

O manejo muda completamente:

  • Linfoma renal → quimioterapia sistêmica (nefrectomia não indicada)
  • Sarcoma renal → quimioterapia ± cirurgia
  • Wilms do adulto → protocolo oncológico específico
  • Tumores germinativos → quimioterapia baseada em platina

Por isso a biópsia é fundamental.

 

 

Diferença entre CCR clássico e CCR por translocação

A diferença entre CCR clássico e CCR por translocação é fundamental, sobretudo em pacientes jovens, porque envolve genética, histologia, comportamento clínico e resposta ao tratamento. Vou explicar de forma comparativa e prática.

1. Definição

🔹 CCR clássico

Geralmente refere-se ao carcinoma de células renais de células claras (ccRCC).

  • Origem: túbulos proximais
  • É o subtipo mais comum (≈70–75%)
  • Predomina em adultos mais velhos

🔹 CCR por translocação

Tumores associados a translocações envolvendo os genes TFE3 ou TFEB.

  • Classificados como:
    • Xp11 (TFE3)
    • t(6;11) (TFEB)
  • Mais comuns em crianças, adolescentes e adultos jovens

👉 A imunohistoquímica isolada pode falhar → testes moleculares são o padrão-ouro.

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Estadiamento completo

Após (ou paralelamente à) biópsia:

  • TC de tórax, abdome e pelve
  • Cintilografia óssea ou PET-CT
  • RM de coluna se dor ou risco neurológico
  • Avaliar:
    • Número de metástases
    • Doença oligometastática × disseminada

 

3. Avaliação clínica e prognóstica

Usar critérios de risco (ex.: IMDC se CCR):

  • Performance status
  • Anemia
  • Hipercalcemia
  • Tempo diagnóstico–tratamento
  • Neutrofilia / trombocitose

Isso influencia tipo e sequência do tratamento.

 

Manejo conforme o cenário

🥇 Nefrectomia parcial (poupadora)

👉 Regra de ouro no paciente jovem

Indicada se: 

  • Tumor ≤7 cm (T1)
  • Tecnicamente ressecável
  • Rim contralateral normal

Benefícios:

Preserva função renal

Menor risco cardiovascular futuro

Igual controle oncológico em T1

 

🥈 Nefrectomia radical

Reservada para:

  • Tumores grandes (>7 cm)
  • Tumores centrais complexos
  • Invasão hilar
  • Impossibilidade técnica de parcial

⚠️ Mesmo nesses casos, discutir muito bem em jovem.

 

Abordagens alternativas (casos selecionados)

Vigilância ativa

Tumores <2 cm

Crescimento lento

Alta suspeita de benignidade

 

Ablação (crioablação / radiofrequência)

Situações específicas

Menos preferível em jovem saudável

 

CCR metastático

Situação especial: doença oligometastática

1–2 metástases tratáveis localmente

Paciente jovem e bom estado geral

➡️ Pode-se discutir:

Metastasectomia

Radioterapia ablativa

Nefrectomia em momento oportuno

 

A) Doença metastática sincrônica

👉 Tratamento sistêmico é prioridade

Primeira linha atual:

  • Imunoterapia combinada, por exemplo:
    • Nivolumabe + Ipilimumabe
    • Pembrolizumabe + Axitinibe
    • Nivolumabe + Cabozantinibe

⚠️ Em jovens, a resposta à imunoterapia costuma ser boa, especialmente se histologia favorável.

 

B) Papel da nefrectomia (nefrectomia citorredutora)

NÃO é rotina inicial. Considerar apenas se:

  • Boa resposta ao tratamento sistêmico
  • Baixa carga metastática
  • Bom performance status
  • Tumor renal sintomático (dor, sangramento, infecção)

👉 Geralmente após resposta sistêmica, não upfront.

 

 Manejo da metástase óssea

Essencial para qualidade de vida e prevenção de complicações:

Tratamento local:

  • Radioterapia paliativa (dor, compressão)
  • Cirurgia ortopédica se:
    • Risco de fratura
    • Fratura instalada
    • Compressão medular

Tratamento adjuvante:

  • Denosumabe ou ácido zoledrônico
  • Correção de cálcio e vitamina D

Resposta ao tratamento

🔹 CCR clássico

  • Excelente resposta a:
    • Imunoterapia (ICI)
    • Anti-VEGF
  • Padrões bem definidos de tratamento

🔹 CCR por translocação

  • Resposta inferior à imunoterapia isolada
  • Pode responder melhor a:
    • TKIs (cabozantinibe, sunitinibe)
    • Combinação ICI + TKI (dados emergentes)
  • Evidência baseada em séries pequenas (tumor raro)

Fontes

https://pubs.rsna.org/doi/full/10.1148/rg.210138

https://www.dovepress.com/treating-renal-cell-carcinoma-in-young-adults-challenges-and-solutions-peer-reviewed-fulltext-article-COAYA

https://www.gov.br/conitec/pt-br/midias/consultas/relatorios/2022/20220601_ddt_ccr_cp_38.pdf

https://www.oncoguia.org.br/conteudo/estadiamento-do-cancer-de-rim/1811/240/