Atrofia de múltiplos sistemas -  Diagnóstico

Considerações iniciais

A atrofia de múltiplos sistemas (AMS/MSA) é uma sinucleinopatia, assim como doença de Parkinson e demência com corpos de Lewy. A diferença neuropatológica fundamental é que na AMS predominam inclusões citoplasmáticas gliais α-sinucleína-positivas, associadas à degeneração dos sistemas estriatonigral e olivopontocerebelar. é um diagnóstico clínico, apoiado por exames complementares. Não existe, atualmente, um exame isolado que confirme a doença em vida. Os critérios mais utilizados atualmente são os critérios da Movement Disorder Society (MDS) de 2022.

 

1. O que faz pensar em AMS?

A característica central é a combinação, em diferentes proporções, de:

  • disautonomia — principalmente hipotensão ortostática neurogênica e/ou disfunção urinária;
  • parkinsonismo — bradicinesia, rigidez, tremor etc.;
  • síndrome cerebelar — ataxia de marcha, ataxia de membros, disartria cerebelar ou alterações oculomotoras.

A AMS pode se apresentar predominantemente como:

AMS-P: predomina parkinsonismo
AMS-C: predomina síndrome cerebelar.

 

2. O diagnóstico começa pela disautonomia

Esse é um dos pontos que mais ajudam a separar AMS de doença de Parkinson.

- Hipotensão ortostática neurogênica

Procura-se queda da pressão arterial de: ≥20 mmHg na sistólica e geralmente ≥10 mmHg na diastólica

após ficar em pé ou durante teste de inclinação.

Nos critérios MDS:

  • para AMS clinicamente estabelecida: queda dentro dos primeiros 3 minutos;
  • para AMS clinicamente provável: pode ser demonstrada dentro de 10 minutos.

Além da queda pressórica, a resposta da frequência cardíaca é inadequada para o grau de hipotensão, característica da hipotensão neurogênica.

 

- Disfunção urinária

É particularmente importante:

  • urgência urinária;
  • incontinência urinária;
  • dificuldade para esvaziar a bexiga;
  • resíduo pós-miccional elevado.

Para AMS clinicamente estabelecida, os critérios consideram particularmente significativo resíduo pós-miccional ≥100 mL.

Pode-se investigar com:

ultrassom vesical → resíduo pós-miccional → estudo urodinâmico, quando necessário.

 

3. Depois procuramos parkinsonismo ou síndrome cerebelar

- Parkinsonismo

Pode apresentar:

  • bradicinesia;
  • rigidez;
  • instabilidade postural;
  • tremor.

Uma pista importante é a resposta pobre ou insuficiente à levodopa.

Isso ajuda a diferenciar AMS de doença de Parkinson, embora não seja suficiente isoladamente.

 

- Síndrome cerebelar

Procura-se:

  • ataxia de marcha;
  • ataxia dos membros;
  • disartria cerebelar;
  • alterações oculomotoras.

Na AMS-C, esses sinais podem ser particularmente evidentes.

 

4. A ressonância magnética é muito importante

Aqui existe uma diferença interessante entre as categorias diagnósticas.

AMS clinicamente estabelecida

Os critérios MDS exigem pelo menos um marcador característico na RM cerebral.

Os principais achados são:

  • atrofia do putâmen;
  • atrofia da ponte;
  • atrofia dos pedúnculos cerebelares médios;
  • atrofia cerebelar;
  • aumento da difusividade no putâmen ou pedúnculo cerebelar médio;
  • sinal "hot cross bun" na ponte.

 

O hot cross bun sign corresponde a uma alteração cruciforme hiperintensa na ponte nas sequências T2.

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Importante: a RM pode ser normal nas fases iniciais. Portanto, RM normal não exclui AMS clinicamente provável.

 

5. Existem sinais de apoio muito úteis

Alguns achados aumentam bastante a suspeita:

  • progressão motora relativamente rápida;
  • instabilidade postural importante precocemente;
  • disfagia grave precoce;
  • disartria grave precoce;
  • estridor;
  • distúrbio comportamental do sono REM;
  • suspiros inspiratórios;
  • mãos/pés frios e com alteração de coloração;
  • disfunção erétil, particularmente quando precoce;
  • tremor postural/cinético mioclônico;
  • deformidades posturais;
  • sinal de Babinski inexplicado.

 

O estridor, em particular, é um sinal bastante interessante quando aparece associado a parkinsonismo ou ataxia.

 

6. Como os critérios MDS organizam o diagnóstico?

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Essa classificação é importante porque não devemos esperar a RM típica aparecer para suspeitar da doença.

7. E como diferenciar AMS de Parkinson?

Essa é provavelmente a parte mais importante na prática.

Pense mais em doença de Parkinson quando:

  • início predominantemente assimétrico;
  • boa resposta à levodopa;
  • evolução mais lenta;
  • disautonomia não é tão precoce ou grave;
  • tremor de repouso típico;
  • anos de resposta sustentada à levodopa.

 

Pense mais em AMS quando:

Parkinsonismo + disautonomia importante e precoce

ou

ataxia + disautonomia

especialmente se houver:

  • hipotensão ortostática neurogênica;
  • retenção urinária/resíduo elevado;
  • progressão rápida;
  • resposta ruim à levodopa;
  • estridor;
  • sinais cerebelares;
  • alterações características na RM.

Os critérios MDS também consideram como características que excluem ou tornam AMS menos provável uma resposta substancial e persistente à terapia dopaminérgica, anosmia inexplicada, demência muito precoce, alucinações visuais recorrentes precoces e paralisia supranuclear do olhar para baixo, entre outras.

Fontes

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