HIPERCALEMIA CRÔNICA - MANEJO
Considerações iniciais
Portanto, se o paciente tem: K = 6,0–6,5 - não tentaria resolver isso apenas com bicarbonato oral.
É necessário avaliar:
I. Bicarbonato
Para hipercalemia crônica, o bicarbonato pode ter papel, mas é importante separar duas situações:
A UK Kidney Association recomenda bicarbonato em pacientes com DRC quando o bicarbonato sérico é <22 mmol/L, com ou sem hipercalemia. O efeito sobre o K é modesto e ocorre principalmente ao corrigir a acidose; não é um "quelante de potássio".
1. Qual bicarbonato usar?
Preferência: bicarbonato de sódio VO
Pode ser utilizado na forma de comprimido ou pó, desde que seja possível determinar a quantidade de bicarbonato administrada.
Comprimido
Uma estratégia prática em adulto com DRC e HCO₃⁻ baixo é começar aproximadamente com:
NaHCO₃ 650 mg VO, 1–2 comprimidos, 2–3×/dia
e ajustar conforme:
Um comprimido de 650 mg de bicarbonato de sódio fornece aproximadamente 7,7 mEq de bicarbonato.
Assim:
A dose necessária pode ser maior em alguns pacientes, mas deve ser titulada gradualmente.
E o pó?
Pode ser usado, desde que a apresentação seja farmacêutica e a quantidade seja conhecida.
Não gosto de recomendar simplesmente "uma colher de bicarbonato", porque a concentração/peso por medida pode variar e isso dificulta a prescrição precisa.
2. E a ampola intravenosa tomada por via oral?
Não se recomenda usar a ampola de bicarbonato IV por via oral como estratégia habitual. Embora o princípio ativo seja o mesmo, a formulação IV é destinada à administração parenteral e pode conter características de concentração, excipientes e osmolaridade diferentes das apresentações orais.
Portanto:
Bicarbonato oral → usar formulação oral.
Bicarbonato IV → reservar para indicações intravenosas específicas, principalmente acidose metabólica grave em ambiente hospitalar.
E, muito importante: bicarbonato IV não é tratamento rotineiro da hipercalemia crônica. A UK Kidney Association recomenda explicitamente que bicarbonato IV não seja usado rotineiramente para tratamento agudo da hipercalemia.
3. Quanto esperar que o bicarbonato reduza o potássio?
Não espere uma redução dramática. Em estudos de longo prazo, a redução média do K foi aproximadamente 0,7 mmol/L, mas os resultados são inconsistentes. A própria UKKA destaca que estudos de curto prazo não demonstraram redução significativa.
II. Florinef ( fludrocortisona).
Ele é interessante quando a hipercalemia é causada por deficiência de aldosterona ou resistência à aldosterona, especialmente:
Hiporreninismo/hipoaldosteronismo
Um cenário clássico é:
DRC + diabetes + hipercalemia persistente + acidose metabólica hiperclorêmica
→ pensar em acidose tubular renal tipo 4 / hipoaldosteronismo hiporreninêmico.
Nesse caso, bicarbonato pode ajudar, e a fludrocortisona pode ser particularmente eficaz, porque atua substituindo o efeito mineralocorticoide.
Como reconhecer um paciente que pode se beneficiar de fludrocortisona?
Eu suspeitaria quando houver:
A investigação pode incluir:
renina plasmática + aldosterona
idealmente interpretadas levando em consideração posição, volemia, medicamentos e função renal.
Se houver renina baixa + aldosterona inadequadamente baixa, isso favorece hipoaldosteronismo hiporreninêmico.
Dose de Florinef
Uma dose inicial bastante utilizada é:
Fludrocortisona 0,05–0,1 mg VO 1×/dia
e pode-se titular conforme resposta.
Em alguns pacientes são necessários:
0,1–0,2 mg/dia
mas doses maiores aumentam muito o risco de:
Portanto, não é um medicamento para simplesmente "baixar o potássio".
Ele é mais apropriado quando existe deficiência mineralocorticoide/hipoaldosteronismo e o paciente consegue tolerar o aumento da retenção de sódio.
Quando eu NÃO usaria Florinef
Evitaria ou teria muita cautela em:
Hipertensão importante
Edema
Insuficiência cardíaca
Ascite/hipervolemia
DRC com grande retenção de sódio
hipernatremia
Nessas situações, o custo em termos de retenção hidrossalina pode superar o benefício de reduzir o K.
III. Resinas de troca iônica tradicionais
Principalmente poliestirenossulfonato de sódio (SPS; Resonium/ Kayexalate) ou poliestirenossulfonato de cálcio (CPS; Calcium Resonium) — podem ser usadas na hipercalemia crônica, mas hoje têm um papel mais limitado, sobretudo pela segurança gastrointestinal e pela disponibilidade de opções mais seletivas.
1. Quando considerar resina na hipercalemia crônica?
Eu pensaria em resina quando:
A UK Kidney Association considera calcium resonium uma opção de curto prazo para hipercalemia crônica em pacientes ambulatoriais que não preencham critérios para patiromer ou zirconium. Eu não usaria resina como primeira escolha para tratamento crônico prolongado
O KDIGO 2024 destaca que patiromer e zirconium têm vantagens em relação aos poliestirenossulfonatos, e o comentário KDOQI considera o SPS principalmente uma alternativa de curto prazo quando os novos quelantes não estão disponíveis.
2. Poliestirenossulfonato de sódio — SPS
Uma dose utilizada é:
15 g VO, 1–4 vezes/dia
dependendo da intensidade da hipercalemia e da resposta.
Entretanto, para tratamento crônico, eu evitaria esquemas muito frequentes se for possível.
O problema é que o SPS:
Além disso, deve ser separado de outros medicamentos orais, porque pode interferir na absorção.
Uma regra prática é: separar outros medicamentos orais por pelo menos 3 horas
e considerar intervalo maior em gastroparesia.
3. Poliestirenossulfonato de cálcio
O CPS evita a carga de sódio do SPS, o que pode ser uma vantagem em:
Porém, também é uma resina não seletiva e apresenta problemas gastrointestinais semelhantes.
Por isso, não consideraria CPS uma solução ideal para tratamento crônico prolongado.
4. Muito importante: NÃO associar sorbitol
Evitar a associação de poliestirenossulfonato + sorbitol, devido à preocupação histórica com necrose intestinal. O KDIGO descreve esse risco, particularmente com formulações contendo sorbitol. E muita cautela com qualquer resina em paciente com:
O KDIGO 2024 coloca os novos quelantes, diuréticos e bicarbonato — quando indicado — dentro de uma estratégia para controlar o K e permitir, quando possível, a manutenção de bloqueadores do sistema renina-angiotensina.
IV. Novas Resinas de trocas
Patiromer e SZC (sodium zirconium cyclosilicate) são atualmente as opções preferidas para hipercalemia crônica/persistente, quando disponíveis, em vez das resinas tradicionais (SPS/CPS). O KDIGO 2024 inclui ambos entre os quelantes de potássio para manejo da hipercalemia na DRC.
1. Patiromer
Para hipercalemia crônica, uma estratégia prática é:
Patiromer 8,4 g VO 1×/dia → Depois, conforme o K: aumentar para 16,8 g/dia →eventualmente 25,2 g/dia.
O ajuste deve ser gradual, geralmente em incrementos de 8,4 g, com intervalo de aproximadamente 1 semana.
Quando eu gosto particularmente do patiromer?
Paciente com:
2. SZC ( sodium zirconium cyclosilicate )
É particularmente interessante quando quero uma redução mais rápida do K.
Para tratamento inicial de hipercalemia: 10 g VO 3×/dia por até 48 horas
Depois passa-se para manutenção: 5–10 g 1×/dia, ajustando conforme o K.
A bula permite manutenção de 5 g em dias alternados até 15 g/dia.
Para um paciente com hipercalemia crônica estável, entretanto, não necessariamente fazer 10 g 3×/dia; essa é a fase de correção inicial. Para manutenção, frequentemente começa-se com 5–10 g/dia e ajusta-se.
Principal cuidado com SZC
Ele contém sódio e pode favorecer: retenção de líquido → edema → piora da insuficiência cardíaca/hipertensão. O KDIGO também identifica edema como um dos principais eventos adversos do SZC.
Qual escolher?
Patiromer ➡️ Melhor opção quando o problema é hipercalemia crônica de manutenção, especialmente em paciente com tendência a edema/IC/hipertensão.
SZC ➡️ Muito interessante quando quero reduzir o K mais rapidamente e também para manutenção.
SPS/CPS ➡️ Deixaria como alternativa quando patiromer/SZC não estão disponíveis ou são inviáveis, principalmente por causa do perfil gastrointestinal e menor seletividade.
Uma estratégia prática
Tratar as duas alterações:
hipercalemia + acidose metabólica
→ bicarbonato oral se indicado
→ avaliar causa da hipercalemia
→ considerar patiromer/SZC se persistente.
→ bicarbonato provavelmente não acrescentará muito. A evidência para bicarbonato em hipercalemia sem acidose é fraca. A recomendação da UKKA para bicarbonato na DRC é direcionada àqueles com HCO₃⁻ <22 mmol/L.; pensaria diretamente em quelante de K, diurético se apropriado e investigação de hipoaldosteronismo/medicamentos.
E se houver K ≥6,5 mEq/L ou alterações eletrocardiográficas, não se deve tentar manejar apenas com patiromer/SZC em casa; é situação de tratamento urgente. O KDIGO classifica ≥6,5 mmol/L como hipercalemia grave.
HCO₃⁻ 18
DRC
PA 120/70
sem edema
Fluxograma de decisão
A. Corrigir causas reversíveis
Suspender/reavaliar:
↓
B. Corrigir acidose
NaHCO₃ VO, por exemplo:
650–1.300 mg 2–3×/dia, titulando conforme HCO₃⁻ e tolerância.
↓
C. Se persistir hipercalemia
Considerar:
patiromer ou zirconium cyclosilicate, especialmente quando se deseja manter RAASi. A UKKA recomenda os quelantes de potássio em situações selecionadas de hipercalemia persistente.
↓
D. Se houver evidência de hipoaldosteronismo
Considerar: fludrocortisona 0,05–0,1 mg/dia
com monitorização estreita de PA, peso, edema, Na e K.
FONTES