TRATAMENTO DA INFECÇÃO POR HELICOBACTER PYLORI
Considerações iniciais
Helicobacter pylori, também chamada H. pylori, é uma bactéria comumente encontrada nos estômago e está presente em aproximadamente metade da população mundial. A grande maioria das pessoas infectadas por H. pylori não têm qualquer sintoma e nunca irão desenvolver qualquer problema de saúde. No entanto, sua presença pode estar associada com o surgimento de alguns problemas gastrintestinais como úlceras e, menos comumente, câncer. Não há clareza do porquê algumas pessoas com H. pylori desenvolvem doenças e outras não.
A transmissão de H. pylori ocorre provavelmente através do consumo de água e alimentos contaminados, sendo sua prevalência (proporção de indivíduos com a bactéria) maior em pessoas de baixo nível socioeconômico.
Os sintomas que podem ser causados pela infecção por H. pylori só ocorrem quando há a presença de úlceras, sejam elas gástricas (estômago) ou duodenais (parte inicial do intestino delgado) ou quando há o desenvolvimento de câncer de estômago.
Não há necessidade de testar todas as pessoas para averiguar a presença de H. pylori. Comumente só necessitam de teste aquelas com presença de úlcera (gástrica ou duodenal) em atividade.
Tratamento - esquemas
O tratamento pode ser feito com antibióticos, por 14 dias e também só costuma ser realizado nas pessoas com úlcera e com presença da bactéria.
Primeira linha
Aqui está o esquema de tratamento do Helicobacter pylori baseado nas diretrizes mais recentes (principalmente American College of Gastroenterology 2024).
📌 PRINCÍPIO ATUAL (mudança importante)
As diretrizes mais novas evitam esquemas com claritromicina empírica, devido à alta resistência bacteriana. Portanto, o tratamento padrão mudou.
🔥 1. ESQUEMA DE PRIMEIRA LINHA (PREFERIDO)
👉 Terapia quádrupla com bismuto por 14 dias (BQT otimizada)
Consiste em:
IBP (ex: omeprazol 20–40 mg) → 2x/dia
Bismuto → 4x/dia
Tetraciclina 500 mg → 4x/dia
Metronidazol 500 mg → 3–4x/dia
📌 Duração: 14 dias
👉 Esse é o esquema de escolha atual para pacientes sem tratamento prévio.
2. ALTERNATIVAS DE PRIMEIRA LINHA
Quando não for possível usar o esquema com bismuto:
✔️ Terapia tripla com rifabutina
IBP + amoxicilina + rifabutina por 14 dias
✔️ Terapia dupla com bloqueador ácido potente (PCAB)
Vonoprazana + amoxicilina por 14 dias
👉 Opções especialmente úteis em locais com alta resistência.
⚠️ 3. ESQUEMA CLÁSSICO
👉 Tripla com claritromicina: IBP + claritromicina + amoxicilina
❌ NÃO é mais recomendado empiricamente
👉 Só usar se houver teste de sensibilidade confirmando susceptibilidade.
🔁 4. FALHA TERAPÊUTICA (RESGATE)
Se o paciente já tratou e falhou:
Se NÃO usou bismuto → usar terapia quádrupla com bismuto
Se já usou bismuto → usar: terapia com rifabutina
👉 Evitar repetir antibióticos previamente usados.
📌5. Acréscimo do PCAB (Potassium-Competitive Acid Blocker)
O Vonoprazan (da classe dos PCAB - Potassium-Competitive Acid Blocker, em português, bloqueadores competitivos de potássio) é uma das principais novidades das diretrizes recentes para tratamento do H. pylori — e está ganhando bastante espaço. Diferente dos IBPs (omeprazol, etc.)
👉 Vantagens:
🔹 ESQUEMAS COM VONOPRAZAN
✔️ 1. Terapia dupla (cada vez mais usada)
⏱️ 14 dias
👉 Alta taxa de erradicação e esquema mais simples e melhor adesão
✔️ 2. Terapia tripla com claritromicina
⚠️ Mesmo problema da resistência à claritromicina 👉 Usar apenas se sensibilidade conhecida
🔹 QUANDO USAR?
👉 Muito útil quando:
👉 Em alguns países já é primeira linha
🔹 EFICÁCIA
Taxas de erradicação:
~85–95% (dependendo do esquema). Geralmente superior aos IBPs em vários cenários
⚠️ LIMITAÇÕES
Ainda menos disponível no Brasil
Custo mais elevado
Experiência de longo prazo menor que IBPs
🔥 6. PONTOS FUNDAMENTAIS
Duração ideal: 14 dias (todas as terapias)
Sempre confirmar erradicação:
teste respiratório ou antígeno fecal ≥ 4 semanas após tratamento.
Resistência à claritromicina é o principal problema atual
Fonte
https://www.grupomedcof.com.br/blog/novo-consenso-sobre-o-tratamento-de-h-pylori/
COELHO, L. G. V. et al. V Consenso Brasileiro sobre Helicobacter pylori. Arquivos de Gastroenterologia, São Paulo, v. 55, n. 2, p. 97–121, 2018.
SOCIEDADE BRASILEIRA DE GASTROENTEROLOGIA. Atualização sobre o manejo da infecção por Helicobacter pylori. São Paulo: SBG, 2022.
CHEY, W. D. et al. ACG Clinical Guideline: Treatment of Helicobacter pylori Infection. American Journal of Gastroenterology, New York, v. 119, n. 4, p. 419–447, 2024.
MALFERTHEINER, P. et al. Management of Helicobacter pylori infection: the Maastricht VI/Florence Consensus Report. Gut, London, v. 71, n. 9, p. 1724–1762, 2022.
SUGANO, K. et al. Kyoto global consensus report on Helicobacter pylori gastritis. Gut, London, v. 64, n. 9, p. 1353–1367, 2015.